Minha resenha: A vida que vale a pena ser vivida - Dr. Clóvis de Barros Filho

Características do livro

  • Publicado em 2014 pela editora Vozes, já está na sua 12ª edição;
  • Em parceria com Arthur Meucci, professor de Filosofia;
  • Possui dez capítulos, além de outras observações distribuídas em 208 páginas; 
Impressões iniciais

Descobri o Prof. Dr. Clóvis por acidente na Internet. Estava pesquisando sobre um dos meus filósofos prediletos - Arthur Schopenhauer - e um vídeo dele me chamou a atenção. A partir daí, comecei a assistir suas palestras sobre vários temas e acabei procurando seus livros para ler e aprender com ele. Graças à sua influência, comecei a apreciar Baruch Spinoza, Berkeley e, principalmente, Platão. O livro em si é como Clóvis diz: "Do Caralho". (sic) Um bom elo entre nós foi o fato de ele palestrar e, ao invés de beber água, consumia Coca light. (Coca é - citando Clóvis ipsis litteris - "do caralho"). 

O livro em si

No primeiro capítulo, propriamente dito, temos a vida pensada. Aqui, há uma jogada surpreendente. Pensamento é igual a busca pela essência. O macete, a grande jogada  aqui é o insight vindo de O Banquete de Platão que influenciou Arthur Schopenhauer e Jean-Paul Sartre. 

"Amar é desejar. E desejo é sempre pelo que falta isto é, pelo que não temos, pelo que não somos, ou pelo que não conseguimos realizar. (...) Essa definição de Eros é mesmo de amargar. E, ao longo dos séculos, nunca de deixou de ser referência para a história do pensamento sobre o tema. Schopenhauer, importante filósofo alemão do século XVIII, vai resumir a existência humana servindo-se da alegoria de um pêndulo que oscilaria da esquerda para a direita como muitos partidos políticos - entre o enfado e a frustração. Não se poderia ter uma concepção mais triste da vida. Afinal, como em qualquer pêndulo, dois são os polos a considerar: ou desejamos e, por definição não dispomos do objeto desejado - frustração - ou, dispomos daquilo que não desejamos mais - enfado. (...) Referência platônica também para Sartre. Que, para falar de desejo, consagra a definição 'suicídio do prazer'. Porque prazer e desejo não são a mesma coisa. Porque se excluem. Afinal, desejar pressupõe a falta. Enquanto que ter prazer implica presença. Encontro. Relação. Atrito". (p. 33,34,35)

Já no segundo capítulo, a vida ajustada. Temos como principal pensador ninguém menos do que Aristóteles e Homero. Nos dizeres do próprio Clóvis, aqui, temos a busca pelo pleno desabrochar de sua essência de modo excelente. A busca pela excelência. A grande jogada aqui é a citação da Odisséia. Ulysses descontente na ilha de Calipso, desejando regressar a Ítaca para os braços de sua amada Penélope. O homem pode ter todas as coisas e ainda assim estar infeliz - por estar desajustado com o todo, com o mundo. A palavra-chave aqui é aquilo que os gregos denominaram eudaimonia, que para a filosofia é aquela atividade que encerra nela mesma o motivo de ser feita. Ela por si só é suficiente. Não preciso de justificativa para fazê-la. Ela é, em si, o fim pelo qual eu faço o que faço. É nesse capítulo aqui que o Clóvis senta o cacete nos livros de auto-ajuda "universais". As famosas 7 regras para... Os 7 hábitos para... Ele diz que como a vida é individual não há soluções prontas. Ele diz isso também em Ética e vergonha na cara! (Mas aí já é outra resenha! Hehe). Parafraseando Nietzsche, Clóvis diz que a felicidade é aquele instante que você não quer que acabe, quer que seja eterno.

"Estando no lugar certo e buscando a excelência na atividade que faz jus à sua natureza, você é feliz. Vive, portanto uma vida boa". (p. 49)

O terceiro capítulo é quente, adianto. Ninguém menos que Epicuro nos presenteia com suas reflexões. E o prazer está em pauta agora, ou então, a ataraxia para os gregos - O bem-estar do corpo e da alma. Esse capítulo é repleto de insights preciosos. O primeiro deles é a questão da Idade para o filosofar. Jovem deve filosofar? E o Velho? Platão e Aristóteles só ensinavam ética para alunos com, pelo menos, 30 anos. Estariam eles certos? Epicuro vai antevendo aqui conceitos que Spinoza utilizará em sua filosofia. A questão da transitoriedade e mudança. Para Epicuro, vamos deixando de ser o tempo todo (p. 70). O prazer é a satisfação dos desejos. Para Epicuro, portanto, há três tipos ou espécies de desejos: Naturais e necessários, naturais e não necessários e desejos não naturais e não necessários (p. 72). O desejo será natural quando for comum aos animais e, caso não seja satisfeito, ocasiona a morte. Daí, deduzimos: Comer, beber e dormir. Os naturais, mas não necessários são aqueles que nos são comuns com os animais, mas caso não sejam satisfeitos, não causam morte. Em tempo pensamos em sexo. O terceiro tipo são aqueles que são exclusivos do homem: Glória, luxo, riqueza e preocupação com a beleza.

Quem é jovem não espere para fazer filosofia; quem é velho não se canse disso. Com efeito, ninguém é imaturo ou superado com relação à saúde da alma. (p. 62)

Em outro ponto do livro, Clóvis agora comenta sobre o Conatus. Aquele esforço por viver, aquele nosso desejo, nossa potência de agir. Daí, fala-se da vida potente. O pensador da vez é Baruch Spinosa. Sua concepção de Deus é diferente da nossa, apesar de ter sido criado para ser um rabino. O pensamento chave aqui é mutação. Um corpo inédito em encontros inéditos com um mundo inédito. Um corpo que não cessa de ser transformado. Se o encontro for bom, eleva o conatus, daí sentimos alegres. Se for ruim, nossa potência de agir é diminuída - daí entristecer-nos. Spinosa diz que somos ação e paixão. Ação porque afetamos o mundo e transformamo-lo. Paixão, porque somos afetados e transformados pelo mundo. O mundo não cessa de deixar seus resquícios em nós (affecções) e tampouco de receber os nossos. Podemos estar cientes dessas mutações, pois são provocados por nós (afetos-ação) ou podemos ignorá-los e ser passivos diante deles (afetos-paixão).   

Haja singularidade. Haja isolamento. Cada um na sua. PORQUE NOSSAS SENSAÇÕES SÃO NOSSAS. ESTRITAMENTE. PORQUE NINGUÉM SENTE O QUE SENTIMOS. (...) E o leitor pode observar na sua própria existência. NUNCA SENTIMOS O QUE SENTEM OS DEMAIS. (...) SUAS TRISTEZAS SÃO SUAS. SUAS FRATURAS DE TÍBIA E SEUS ORGASMOS TAMBÉM. (p. 114)


Aqui realça-se a singularidade de cada um de nós. Por isso, os livros 'universais' de auto-ajuda não são receitas de sucesso para todos igualmente.  A sua vida é você quem vive. As decisões que toma são responsabilidades sua. Exclusivamente. Para citar Sartre "Somos condenados a ser livres". Aqui, novamente, dá pra linkar com o Ética e vergonha na cara! e também contrastar com o Não nascemos prontos! do Mário Sérgio Cortella (Outra hora, quem sabe...). O importante em mente aqui é: Cada relação com o mundo que você vivencia modifica você, por isso - a exemplo de Epicuro - se pode dizer que vamos deixando de ser o tempo todo. 

Evidentemente não traçamos o livro todo capítulo por capítulo. Omitimos alguns, ótimos por sinal. Isso com o ensejo de dar a você, leitor, a oportunidade de lê-lo com os próprios olhos. Como Berkeley propõe com o seu imaterialismo, isto é, sua percepção de mundo é única. O texto que leio e o texto que lês pode ser idêntico, mas dado os encontros inéditos que cada um experimenta, a percepção do texto difere entre nós. Para mim, e não, não sou um intérprete autorizado do Clóvis, a principal, mas não a única, claro, contribuição que ele nos presenteia nesse livro - em especial - é o que consta nas páginas 202-203 quando diz:

Já aprendemos, à exaustão, que não há um gabarito para a vida que seja aplicável a qualquer um. Porque o mundo que alegra gregos, não alegra troianos. O gol que alegra tricolores entristece alvinegros. E a tinta verde que encantou o comprador, a vendedora se recusa a vender. De tão deselegante que é. Afinal, somos corpos singulares em relação a qualquer outro corpo no mundo. Mas ainda nos falta considerar uma segunda singularidade. Face a nós mesmos. Assim, se não há gabarito para todos, também não há uma solução existencial para nós, válida para toda nossa trajetória. Porque o que nos alegra hoje, pode não nos alegrar amanhã. E a vida boa deste instante, poderá converter-se em puro tédio logo em seguida. Porque sempre seremos outro em relação ao que já fomos.





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