sábado, 10 de setembro de 2016


Fuja da hiperespiritualidade!


Os “hiperespirituais” são um fenômeno comum em círculos cristãos. São pessoas tão santas e irrepreensíveis, que fazem as demais sentirem-se lixo jogado na rua ao lado delas. Transmitem tamanho ar de superioridade espiritual, que todos temem que elas possam, com apenas um olhar, identificar todos os seus pecados. Não pecam, e talvez nunca tenham pecado. Oram o tempo todo e sabem as Escrituras de trás para frente. São as primeiras a se colocarem em pé para orar. Estão sempre com as mãos e os olhos erguidos aos céus. Não tem nada do que se arrepender. Nunca tiveram dúvidas a respeito de sua própria fé. O texto “ajuda-me na minha falta de fé” não faz sentido para elas, pois sua fé é tamanha que não mudaria apenas um monte, mas um continente de lugar.

É óbvio que estou usando de sarcasmo para fazer uma caricatura. Não há no mundo pessoa que possua tais atributos. O que há, são os que ostentam orgulhosamente essa falsa hiperespiritualidade. Na verdade, somos tentados a parecer hiperespirituais para os outros, assim como os fariseus, que olhavam de cima para baixo para os publicanos, por exemplo (Lc 18. 9-14). Às vezes esquecemos da nossa condição miserável. Esquecemos que nossa fé é fraca, e que o desespero nos atinge com frequência. Gostaríamos que a vida cristã fosse simples, tipo "preto e branco", mas ela assume uma variedade de tons de cinza desagradável. Se formos realmente honestos, quem não se sente reprovado?

Outra tentação é olhar para o passado e pensarmos nos personagens históricos como pessoas sem pecado, quase tão puras quanto os anjos. Isso é um grande equívoco. O apóstolo Paulo, por exemplo, considerava-se o principal dos pecadores (1Tm 1.15), alguém que enfrentava constante luta com seus pecados (Rm 7.15-24). Quem nunca ouviu a história que Martinho Lutero orava três horas antes de iniciar seus trabalhos nos dias atarefados? Pensamos “que homem santo, não chego aos seus pés”. No entanto, em uma carta real de Lutero ao seu amigo Felipe Melanchthon ele escreveu: “Você me exalta demais… Sua alta estima a meu respeito me envergonha e me tortura, visto que – infelizmente – assento-me aqui à vontade, endurecido e insensível – ai de mim! –, orando pouco, lamentando pouco pela igreja de Deus. Em resumo, eu deveria ter o espírito ardoroso, mas eu queimo na carne, lascívia, preguiça, no ócio, na sonolência. Já se passaram oito dias em que nada escrevi, não orei nem estudei; isso se deu em parte por causa das tentações da carne, e em parte porque sou torturado por outros encargos” (Lutero apud REEVES, 2016, posição 106, Kindle Edition).

hiperespiritualidade é enganosa e alimenta uma autossuficiência condenada pelo Cristo que veio para os pecadores e não para os justos (Lc 5.29-32). Quando sustentamos uma posição que não é a nossa, deixamos de desfrutar do perdão gracioso e do amor incondicional de Deus. Michael Reeves diz que à medida que crescemos como cristãos, não devemos nos sentir mais autossuficientes, e sim mais necessitados. A vida cristã deve ser uma antítese à autodependência. Se formos sinceros, Deus nos receberá, nos perdoará os pecados e nos purificará de toda injustiça (1Jo 1.9), pelos méritos de seu Filho Jesus. Por isso, fuja da hiperespiritualidade!

“Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor!” (Romanos 7.24-25).

Fonte:http://www.diarioreformado.com/single-post/2016/09/07/Fuja-da-hiperespiritualidade