PROTESTANTE? O QUE É ISSO? 500 ANOS DE REFORMA (1517-2017)

PROTESTANTE: O QUE É ISSO?

Essa designação apareceu à primeira vez na Dieta de Espira ou Spira em 1529. Com a eclosão dos pensamentos de Lutero, a religião na Alemanha foi dividida em estados reformados ao Norte e católicos romanos ao Sul. Nessa dieta, os príncipes católicos proibiram os reformados luteranos de ensinarem nos seus estados e exigiram ter liberdade de ensinar nos estados reformados luteranos. Os príncipes luteranos reagiram a isso desde então. Essa disputa só foi oficialmente dirimida em 1555 na paz de Augsburgo com a solene frase: De quem é a região siga a religião (Cuius regio, eius religio).

Mas certamente não foi apenas um protesto político; foi mais um protesto teológico e religioso, ainda que inicialmente, inusitado. Quando Martinho Lutero propõe um debate acerca do valor das indulgências aos catedráticos da cidade de Wittenberg, ele não esperava que desse tanta repercussão e muito menos uma nova cisão na cristandade. Nova cisão, pois antes, já havia igrejas independentes da Sé Romana, como, por exemplo, a Igreja Armênia, Copta e Ortodoxa. Ele esperava que a igreja fosse reformada em sua teologia do perdão de pecados. O clamor pela reforma na igreja não foi uma inovação de Martinho Lutero, mesmo antes já havia o grito por reforma na cabeça (Papa, cardeais, arcebispos, bispos, padres) e nos membros (povo comum). Houve tentativas de reformas conciliares muito antes de Martinho Lutero. 

Mas em quê consistiu, exatamente, o protesto de Martinho Lutero? Incialmente, como já salientado, 
contra os abusos das indulgências. Nas suas teses do debate do valor das indulgências, Lutero não nega essa prática da cristandade (fará isso depois, nos escritos do Cativeiro Babilônico da Igreja e Da liberdade Cristã), ele quer apenas corrigir o comportamento inapropriado dos vendedores de indulgências na Alemanha. Isso é um ponto importante, Lutero nunca quis dividir a Igreja Cristã, ele quis reformar. Essa acusação de nova igreja parte do Cardeal Caetano num debate que teve com Lutero. Lutero até disse, em determinada ocasião, que ele não agia tão freneticamente a ponto de rejeitar tudo que estava sob a jurisdição do papa, como fazia os fanáticos (Schwärmer), pois assim teria que rejeitar a Igreja Cristã. O que Lutero se propunha a fazer era redescobrir o evangelho da glória e da graça de Deus conforme sua tese 62. 

Ser protestante é perseguir o ideal evangélico. A boa-notícia do perdão dos pecados gratuitamente, sem participação humana. 

Lutero também lutou contra o que ele chamou de ‘três muros’ que Cúria Papal ergueu ao redor de Si: A Supremacia do Papa; a Interpretação do Magistério; Apenas o Papa pode convocar um Concílio. (À nobreza cristã alemã). Contra o primeiro muro, Lutero afirma o Sola Sacerdos. Todos os cristãos são sacerdotes diante de Deus em Cristo; contra o segundo muro, Lutero ergue a voz dizendo que a Palavra de Deus foi dada à todo o povo de Deus e ao terceiro muro, Lutero diz que é responsabilidade cristã, ao ver a cristandade afogada em erros, erguer a voz em favor da Noiva de Cristo.
Ser protestante é perseguir o ideal de que, em Cristo, há igualdade diante de Deus. Jesus é o Sumo Sacerdote e nós somos sacerdotes uns para com os outros. É romper com o misticismo que oração de uns é mais forte e são melhores que orações de outros. Por sermos todos sacerdotes temos a oportunidade de fazer ‘livre-exame’ e não ‘livre-interpretação’ das escrituras, por isso, é direito dos cristãos ter a Bíblia em seu vernáculo. 

Ser protestante é voltar-se às Escrituras cada vez que a Igreja foge. A Igreja vive se apostatando da mensagem apostólica. Ser protestante é, com a Bíblia nas mãos, retornar a essa mensagem de que Deus, em Cristo, veio até nós para salvar-nos da ira, do pecado, do Diabo, gratuitamente e sem contribuição nossa.  Para isso, o protestante deve (deveria!) conhecer a Bíblia. Foi por essa razão que Lutero preparou os seus Catecismos em 1529 e Calvino escreveu suas Institutas em 1536. Foi por essa razão que Melanchton advogou a ideia de um sistema de ensino similar ao nosso. Ensino fundamental, Médio e Superior. Para que os protestantes pudessem ler e interpretar adequadamente a Palavra de Deus.

Mas, o protestantismo não ficou restrito apenas a área teológica. Eles abriram escolas, orfanatos, asilos, hospitais, gratuitos. Ser protestante é transformar, no poder do Espírito, a ética social com os valores do Evangelho. Abraham Kuyper, primeiro ministro Holandês, e pastor protestante entendeu bem isso e disse: “Não há um centímetro quadrado em todos os domínios de nossa existência, sobre os quais Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: É meu!”. 

Ser protestante é, na medida do possível sem transformar em legalismo e no poder do Espírito Santo, influenciar sua geração positivamente, no campo das ciências, saúde, política, educação, religião, etc.

 Foi graças ao protestantismo que houve liberdade de expressão e liberdade religiosa. Nesse ponto, Calvino diz: “Subtrair a liberdade a um homem equivale a mata-lo. Privar o homem de um tão grande bem, é como que cortar-lhe a garganta” (Comentário de Gênesis 12:5). Foi graças ao protestantismo que houve oposição à Escravidão, pessoas como William Wilberforce e Jonh Wesley lutaram contra essa terrível prática. O pastor Rabaut Saint-Eitenne, em meados de 1790, já declarava: “É sobre nossos princípios que me fundamento, Senhores, para pedir-lhes declarar num artigo que todo cidadão é livre em suas opiniões, tem o direito de professar livremente seu culto e não deve ser de forma alguma importunado por causa de sua religião. A liberdade, deve, portanto, adornar todos os franceses igualmente e da mesma maneira. Aquele que agride, seja no que for, a liberdade dos outros, ataca a sua própria e merece perde-la por seu turno”.

Ser protestante é, na medida do possível, se submeter às autoridades superiores. Isso é mandamento bíblico (Rm. 13; 1Tm 2; 1Pe. 2:13-14). O próprio Calvino reconhece e isso e diz: “Quando os povos se submetem aos reis, príncipes, magistrados, certamente isso ocorre sob um impulso e instintos divinos. Foi Deus que inspirou aos homens esse temor, sem qual, certamente, eles nunca se submeteriam. Sabemos quanta é a ambição inata em cada homem e quanto cada indivíduo é ávido por dominação, e que é absolutamente contrário à nossa natureza curvar nosso pescoço sob um jugo”. O protestantismo persegue o ideal democrático; eis o que Calvino escreve: “O povo será recebido em sua liberdade quando os magistrados são eleitos. Quando aceitarmos o poder, que isso se faça pela voz comum de todos”. A Declaração de Independência Holandesa em 1581 diz que “Deus não criou os povos escravos de seus príncipes, ao contrário, criou os príncipes para seus súditos”.

Os protestantes reformaram a liturgia, alguns em aspectos menores como os luteranos e anglicanos e outros radicalmente como os reformados calvinistas, mas todos esses grupos são reformados, bíblicos e evangélicos. Um reformador pouco conhecido de 1533 chamado Antônio Fromment, declarava que os pregadores reformados não buscavam  as posses materiais dos seus ouvintes. Ele disse: “Vós bem percebeis que não somos nós que exploramos as viúvas, pois estamos vestidos como as demais pessoas do povo, sem criar diferença com coisas externas e mais, não estimulamos o povo humilde a que nos dê seus bens”. Percebe-se então, que campanhas, votos, sacrifícios que pseudo-igrejas protestantes fazem, contrariam o espírito evangélico do qual se conclama herdeira. Tudo o que Deus faz é por graça, mediante a fé; fé essa que é, ela mesmo, dom divino. 

O protestantismo, de linhagem Quacker lutou a favor de justiça social, salário justo para trabalhadores, aposentadoria decente para idosos e melhoria para tratamento para os presos, contra o tráfico dos negros, e a salvaguarda dos Índios.

O protestantismo tem que transformar positivamente (ainda que hoje o faça majoritariamente negativamente) a sociedade. Não é sem razão que Martin Bucer, Ulrico Zwínglio, Nicolas Manuel e João Calvino são chamados de reformadores sociais. A ética protestante do trabalho, por exemplo, incentiva um dia de descanso semanal. Calvino declara a esse respeito: “Os fiéis devem repousar de seus próprios trabalhos a fim de permitir que Deus opere neles. Agir assim é aderir em todas as coisas à ação de Deus”. O próprio Max Weber salienta que sobriedade e poupança financeira são filhos do protestantismo histórico. 

Assim sendo, protestante é alguém que preocupa com a salvação individual e com o progresso social através da graça e do poder de Deus no evangelho. Ser protestante é, munido da Palavra de Deus, levantar-se contra a corrupção do governo, abusos mercantis, estados deploráveis na saúde e anunciar o reino já inaugurado de Jesus para todas as pessoas. O protestante deve protestar contra os abusos de pseudo-igrejas evangélicas, que nada mais são do que indulgências disfarçadas; deve protestar contra o monopólio do pastor no rebanho, que nada mais é do despotismo disfarçado; deve valorizar o que for saudável na Tradição mais ampla do Cristianismo nos seus quase 2000 anos e não descartar o bebê com água; Deve transformar positivamente a Universidade; combater o racismo; É viver o evangelho da Liberdade de Deus. É viver em Cristo e no seu próximo para o bem dele como Lutero destaca em Da liberdade Cristã.

Que Deus nos ajude repensarmos nosso protestantismo nesses 500 anos de Reforma. Que possamos ser herdeiros legítimos do pensamento da Reforma, lendo a Bíblia e interpretando-a fielmente para nossa realidade. Que sejamos, como dizia Voetius: “Igreja Reformada, sempre se reformando” (Eclesia reformata semper reformanda est). 

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