Série "Lei e Evangelho": As duas vozes de Deus


A CORRETA DISTINÇÃO ENTRE LEI E EVANGELHO (II)

AS DUAS VOZES: SALVAÇÃO E CONDENAÇÃO

“Onde e com quem Deus fala, seja em ira, seja em graça essa pessoa certamente é imortal. A pessoa de Deus que fala e a Palavra salientam que nós somos a espécie de criaturas com quem Deus quer falar eternamente e de modo imortal”.  – Lutero[1]

Eis aqui a tônica das duas vozes. Uma aponta para a condenação e outra para a salvação.  Ela não é algo peculiar da teologia luterana; antes, remonta à própria Bíblia. Os profetas testemunharam dela, João Batista testemunhou dela, o Senhor testemunhou dela, os apóstolos testemunharam dela e os pais da Igreja também. Atentemo-nos à tal testemunho:

·         Nos profetas
“Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para vida eterna, outros para vergonha e horror eterno”. – Daniel 12:2
·         João Batista
“Eu batizo vocês com água, para arrependimento; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso que eu, do qual não sou digno de carregar as sandálias. Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo. Ele tem a pá em suas mãos, limpará a sua eira e recolherá o trigo no celeiro; porém, queimará a palha num fogo que nunca se apaga. – Mateus 3:11-12
·         Jesus
Não fiquem maravilhados com isso, porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouviram a voz dele e sairão; os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo. – João 5:28,29
·         Apóstolos
Tribulação e angústia virão sobre todo aquele que faz o mal, ao judeu primeiro e também ao grego; mas haverá glória, honra e paz a todo que pratica o bem, ao judeu primeiro e também ao grego. – Romanos 2:9,10
Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego. A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e injustiça dos seres humanos que, por meio da sua injustiça, suprimem a verdade. – Romanos 1:16,18
Porque nós somos para com Deus o bom perfume de Cristo, tanto entre os que estão sendo salvos como entre os que estão se perdendo. Para com estes, cheiro de morte para morte; para com aqueles, aroma de vida para vida. – 2Coríntios 2:15-16
Portanto, assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os seres humanos para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos para a justificação que dá vida. Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos. – Romanos 5:18-19
Porque, assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo. – 1Coríntios 15:22

A bíblia atesta amplamente, como vimos, as duas vozes de Deus: Uma condenatória – que como vimos é a Lei – e outra salvadora – que como vimos é o evangelho. Nas palavras de Brakeimer, importante teólogo luterano

“A lei não é o evangelho e o evangelho não é a lei. De acordo com Lutero, desqualifica-se quem for incapaz de fazer a devida distinção. Inversamente, porém, também não há como separar. No dizer de Dietrich Bonhoeffer[2], a pregação do evangelho sem lei resulta em graça barata, assim como inversamente a pregação da lei sem o evangelho acaba em desespero e terrível tirania legalista. A palavra de Deus é, a um só tempo, graça e juízo.[3]

De maneira bastante simplória podemos dizer que se prega a lei quando – seja no Antigo ou Novo Testamento – temos um mandamento a obedecer e falhamos nisso e então somos condenados como pecadores. Prega-se evangelho, em contrapartida, quando se reforça quem Cristo é e o que fez em nosso favor –seja no Antigo ou Novo Testamentos – de modo incondicional. Conforme vimos anteriormente nas palavras de Bavinck, teólogo reformado.

Lutero chama essa distinção de a distinção entre obras e fé; ele interpreta 2Tm. 2:15 como ordem na qual todo cristão deveria saber fazer essa distinção corretamente.[4] Ao mesmo tempo, ele também diz que na teoria a coisa é linda, mas chega na prática do coração e a coisa não fica tão fácil assim.  Ele diz – e se inclui – que na terra, não há ninguém que saiba diferenciar corretamente e sem nenhum equivoco a Lei e do Evangelho[5]. Ele diz que essa distinção sempre esteve presente na Igreja e estará até o fim do mundo[6]

Na Liberdade do cristão (1520), Lutero diz:

(...) É preciso saber também que as Sagradas Escrituras podem ser divididas em duas palavras que são: mandamentos ou leis de Deus, e promessas ou palavras afirmativas. Os mandamentos nos ensinam e prescrevem todo tipo de boas obras, mas isso não é suficiente para que aconteçam efetivamente. Elas orientam, mas não ajudam; ensinam o que deve fazer, mas não dão força para isso. Elas só foram ordenadas para que o homem veja sua incapacidade de fazer o bem e aprenda a desesperançar-se consigo mesmo. [7]

Theodor Dieter, professor-pesquisador e diretor do Instituto de Pesquisa Ecumênica de Estrasburgo na França, e pastor luterano em Württemberg, na Alemanha, esclarece:

O ser humano está situado em duas relações: em relação à promessa do evangelho, a pessoa crente crê que é justa, e em relação à exigência da Lei confessa ser pecadora. Seus pecados são perdoados por causa de sua fé no evangelho de Cristo, mesmo quando ela não é capaz de cumprir a lei.[8]

Alexander Stahlhoefer[9] e Maurício Machado[10] no Mosaico Teológico: Esboços de doutrina cristã, vol. 1, (BT BOOKS, 2014) esclarecem que (p. 130):

Lutero dizia que somos ‘simultaneamente justos e pecadores; pecadores de fato, justos na esperança’.

Pecadores in facto, porque somos incapazes de cumprir a lei que nos é ordenada. Justos na esperança porque cremos em Jesus Cristo e um dia seremos libertos da presença do pecado em nós – na glorificação. Pecadores porque somos nascidos e concebidos em iniqüidade (Sl. 51:5) e somos desviados desde o nascimento (Sl. 58:3). Justos porque todo aquele que crê é livre da condenação (Rm 8:1) e já passou da morte para a vida (Jo. 5:24).

Assim podemos ver que somos simul Justus et peccator. (Simultaneamente justos e pecadores) conforme lema de Lutero. Podemos então receber em nós mesmos as boas notícias de que Deus nos ama incondicionalmente, mas estamos cientes de que estamos muito aquém do esperado por esse Deus. Por essa razão, mesmo salvos, há momentos de trevas na nossa caminhada e dúvida, pois apesar de salvos não deixamos de ser pecadores.

EVANGELHO NO A.T E LEI NO N.T.

Podemos exemplificar o que dissemos antes com uma passagem evangélica no A.T. Essa passagem é o Salmo 32. Ali se anuncia perdão de pecados gratuitamente. Isso é, de acordo com Lutero, evangelho. Evangelho é possuir o perdão dos pecados. Paulo vai interpretá-lo de forma evangélica em Romanos 4.  Já a Lei no N.T. podemos dizer que um exemplo é Colossenses 3:5,8. Ali, nos é ordenado despir do velho homem completamente e sabemos por experiência que – nessa vida – isso é impossível e por isso precisamos do perdão (evangelho).

Lutero insistia tanto nessa divisão por acreditar que o evangelho é a palavra criadora. O Evangelho cria o que diz. Frases como “Teus pecados estão perdoados” criam a realidade que expressam [11]

Para Lutero, o evangelho sempre é externo[12]; isto é, vem a nós pela prédica dominical, pelos sacramentos e pela Palavra escrita. Por isso, a teologia Luterana pode falar de três formas da Palavra: Oral, Sacramental e Escrita[13]. Podemos sintetizar o ensino sobre o Evangelho da seguinte forma[14]:

·         É o resumo de toda a mensagem cristã (Mc. 1:1; 1Co. 15:1)
·         É a boa nova de Deus, isto é, a respeito de Deus e dada aos homens por Deus (Mc. 1:14; 1Ts 2:2,8-9)
·         É a boa nova de Jesus Cristo, isto é, entregue aos homens por Jesus e encarnada em ações para os homens, pelos homens e diante dos homens por Jesus Cristo (Mc 1:1; 2Co. 4:4; 9:13; 10:14)
·         É nosso evangelho (2Co 4:3; 1Ts 1:5; 2:14). Elas provêm de Deus, pertencem a Deus, provêm de Jesus e são manifestadas por Jesus, mas devemos apropriarmo-nos delas a tal ponto que o evangelho se torne “nosso evangelho”, “meu evangelho”.
·         É para todos os homens (Mc. 13:10; 16:15; At. 15:7; Jo. 3:16)
·         É uma revelação divina, não descoberta humana (Gl. 1:11-12)
·         É algo crível e que demanda nossa fé (Mc. 1:15)
·         Deve ser proclamado e repartido (Rm 15:19; 1Co 9:14,18; Gl. 2:2)
·         É algo que demanda nosso tudo (Mc 8:35; 10:29)
·         É algo que o homem pode servir (Rm. 15:16)
·         É algo que o homem pode defender (Fp. 1:7,17)
·         É algo que o homem pode impedir (1Co 9:12)
·         É algo que o homem pode recusar (Rm  10:16; 2Ts 1:7-8; 1Pe 4:17)
·         Pode ser deturpado (2Co 11:4; Gl 1:6-7)
·         São boas novas verdadeiras (Gl. 2:5,14)
·         São boas novas de esperança (Cl 1:23)
·         São boas novas de paz (Ef. 6:15)
·         São promessas de Deus (Ef. 3:6)
·         São boas novas de imortalidade (2Tm 1:10)
·         Falam do Cristo ressurreto (2Tm 2:8)
·         São boas novas de salvação (Ef. 1:13)

Lembrados como estamos das três distinções da Lei em Paulo, que são a Palavra condenatória, a Lei dada no Sinai e a tentativa de se justificar com boas obras, há espaço para falar do lado positivo da Lei Moral que é cumprida no Evangelho (Mt. 5:17-18). O que se rejeita da Lei é o que nos separa de Cristo (GL. 5:4). A nossa própria tentativa de justiça diante de Deus. Não somos antinomistas. Vejamos o conceito e o ensino bíblico a seguir...



[1] Conversas à mesa, vol. 5, linha 76 (Sobre Gênesis 26:24) [Edição crítica de Weimar]
[2] Pastor e teólogo alemão e Luterano, pastor da Igreja Confessante, resistente ao Nazismo, executado como Mártir em 09/04/1945 por enforcamento. Inventor do conceito da “graça barata” e do “cristianismo sem religião”. Executado sob acusação de traição, por ter participado da tentativa de assassinato de Adolf Hitler.
[3] BRAKEIMER, Gottfried Panorama da dogmática cristã: à luz da confissão luterana, 2ª Ed, São Leopoldo, Sinodal/EST, 2015, p. 21
[4]  BAYER, Oswald Teologia de Martim Lutero: Uma atualização, 1ª Ed, São Leopoldo, Sinodal, 2007, p. 43
[5] Ibid. p. 48
[6] Ibid. p.213
[7] LUTERO, Martinho: Uma coletânea de escritos/Martinho Lutero; tradução de Johannes Bergann, Arthur Wesley Dück e Valdemar Kroker, São Paulo, Vida Nova, 2017, p 169-170 (Clássicos da Reforma)
[8] Lutero: Um teólogo para os tempos modernos editado por Cristine Helmer, trad. Geraldo Korndorfer, São Leopoldo, Sinodal, 2013, p.224  
[9] Doutorando em teologia na Alemanha e pastor luterano na MEUC, integrante do Bibotalk
[10] Autodidata em teologia, criador do blog “amilenismo” e integrante do Bibotalk
[11] Lutero: Um teólogo para os tempos modernos editado por Cristine Helmer, trad. Geraldo Korndorfer, São Leopoldo, Sinodal, 2013, p 225 (adaptado)
[12] Ibid, p. 226
[13]  KOLB, Robert; TRUEMAN, Carl R. Entre Wittenberg e Genebra: Teologia Luterana e Reformada em diálogo, trad. Josaías, Cardoso Ribeiro Junior, Brasília, DF, Editora Monergismo, 2017, p. 20.
[14] BARCLAY, William, Palavras Chaves do Novo Testamento vol. 1, 4ª reimpressão, Vida Nova, São Paulo, 2010, pp. 69-72

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