segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O Império se torna cristão: Boa iniciativa?

O Império se torna cristão: Boa iniciativa?


É sabido que com Édito de Milão em 313 dC, a perseguição aos cristãos no Império Romano cessa. É Sabido também que durante o reinado de Teodósio I o cristianismo é oficialmente declarado religião do Império e 'quem quer que seguisse outra forma de culto receberia punição do Estado' (Earlie, p. 106) e com isso todos passaram a ser inclusos no rol de membros da Igreja. Hurlbut, em sua História da Igreja Cristã, registra resultados negativos e positivos para a Igreja com o fim da perseguição e oficialização do cristianismo como religião oficial (p. 86-94). Dentre os resultados negativos está justamente o fato de todos estarem dentro da igreja sem conversão, mas por conveniência.

Essa conveniência trouxe para dentro da Igreja homens inescrupulosos que buscaram somente vantagens, sejam cargos eclesiásticos ou posição política. Os costumes pagãos foram adotados na liturgia cristã, tornando a adoração cristã cheia da pomposidade que se viu na Igreja durante a Idade Média.

Desde então, a Igreja vem enfrentando o problema de ter números, mas não conversos. Esse problema resultou inclusive na corrupção de papas durante a Idade Média. Clérigos que ao findarem o sermão, iam direto para jogatina ou bares; outros que tinham duas mulheres ou mais. Todavia, esse problema não é exclusividade da Oficialização do Império, é recorrente desde o Novo Testamento.

Paulo diz que havia cristãos em Corinto (cidade da Grécia Antiga) que estavam em pecado escancarado e deveriam ser tratados (1Co. 5:1-13), outros que estavam litigando no tribunal (1Co. 6:1-11) e deveriam envergonhar-se disto. Na Igreja de Creta (uma ilha que ligava a Ásia e a Grécia), Paulo diz ter encontrado homens hereges que deveriam ser evitados (Tt. 3:10-11). Pedro diz que nas Igrejas na Ásia, haviam falsos mestres que serão julgados por Deus (2Pe 2:1-22).

É por causa de indivíduos não regenerados dentro da Igreja que Lutero fala da 'abscondidade' da Igreja. E chama-a de "simultaneamente justa e pecadora” à semelhança de cada cristão (BAYER, p. 200-203). Lutero e Calvino nutriam respeito pela Igreja. Concordando com Cipriano, bispo de Cartago (séc. III) chamam a Igreja de Mãe e Escola do cristão (GEORGE, p 236). Foi essa a razão, pela qual os reformadores fixaram as marcas da Igreja verdadeira (notae ecclesiae), que nos credos antigos são a santidade, unidade, apostolicidade e catolicidade (OLSON, p. 414) e, para eles, são, na tradição Luterana, o evangelho pregado em sua pureza e os sacramentos (batismo e ceia) corretamente administrados. Para Calvino, além destes, acrescenta-se o uso da disciplina (AQUINO, p.90) e para o Anglicanismo, o evangelho e sacramentos corretamente administrados, a disciplina fielmente exercida e a sucessão apostólica (AQUINO, p. 91).

Berkhof em sua Sistemática, afirma que uso das marcas (ou sinais) da Igreja são para evidenciar melhor quão próxima a igreja local se encontra da pureza do Novo Testamento (p. 572). O "Prefácio ao Apocalipse de João" escrito por Lutero em 1530, é consolador nesse sentido, ele diz: "Contanto que a palavra do evangelho permaneça pura entre nós e nós a amemos e a valorizemos, não duvidaremos que Cristo está conosco e entre nós, mesmo que as coisas andem muito mal" (BAYER, p 201). Assim como Cristo andava entre as sete igrejas do Apocalipse que também tinham seus problemas, assim o faz hoje.  

Sendo assim, a resposta a pergunta inicial depende do olho de quem o lê. Se olharmos só pela perspectiva da conversão conveniente, certamente foi um desastre. Se olharmos para o Deus que guia sua Noiva, certamente teremos que dizer: "Cristo está conosco e entre nós, mesmo que as coisas andem muito mal", pois foram épocas de maiores desastres que Deus usou para promover os avivamentos.  

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HURBULT, J. L. – História da Igreja Cristã, 1ªEd. Atual. e Rev. Trad. João Batista; Vida Nova, SP, 2007.

CAIRNS, Earlie – História do Cristianismo através  dos séculos: Uma história da Igreja Cristã, trad. Israel Belo de Azevedo, 3ª Ed. rev. e ampl.  São Paulo, Vida Nova, 2008

BAYER, Oswald – A teologia de Martim Lutero: Uma atualização, trad. Nélio Schneider, São Leopoldo, Sinodal, 2007.

GEORGE, Timothy – Teologia dos reformadores trad. Gérson Dudus e Valéria Fontana, São Paulo, Vida Nova 1993.

OLSON, Roger E. História das controvérsias na teologia cristã: 2000 anos de unidade e diversidade trad. Werner Fuchs, São Paulo, Editora Vida, 2004.

AQUINO, Rodrigo Bibo (org.) Mosaico Teológico: Um esboço de doutrinas cristãs vol. 1 Joinville, BTBooks, 2013.


BERKHOF, Louis (1873-1957) Teologia Sistemática trad. Odayr Olivetti, 4ª ed. rev. São Paulo, Cultura Cristã, 2012.