Um cristianismo além da Reforma



Aproximamo-nos de 502 anos de Reforma Protestante e tem muita gente que acha que esse evento é o suprassumo do cristianismo. O que proponho a escrever hoje é sobre um cristianismo além e anterior à Reforma.

A Reforma é, sem dúvida, um evento importantíssimo, porém, estritamente Ocidental. O cristianismo oriental foi pouco afetado por esse evento. Essa é a razão pela qual digo que há um cristianismo além da Reforma. Comecemos pela origem: O Cristianismo antigo, o cristianismo apostólico.

I.                   O Cristianismo apostólico

Mosaico do Cristo Pantocrator
(Cristo todo-Poderoso)
O cristianismo antigo era simples e poderoso. Os discípulos davam testemunho de Cristo onde fossem e esse foi o maior ímpeto missionário da época. A perseguição nos primeiros vinte anos de cristianismo foi o propulsor da mensagem. Espalhados pelo mundo afora, os cristãos pregavam a mensagem da reconciliação com Deus. A mensagem era unificada. Desde o século 2 º, nos ritos batismais, se confessava a fé única da Igreja – Essa confissão deu origem ao Credo apostólico posteriormente.  A fé cristã era proeminentemente trinitária. Eles acreditavam no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mateus 28:19). Eles eram altamente cristológicos. Eles confessavam com a boca que Jesus Cristo é o Senhor e criam nisso com o coração (Romanos 10:9). Eles eram homens fiéis a causa que sustentavam. O que eles ouviam na presença de muitas testemunhas, eles transmitiam a homens fiéis e idôneos que também transmitiam a outros (2Timóteo 2:2).

Quando o Império Romano – na pessoa de Constantino e Licínio – promulgou o Édito de Milão em 313 d.C. concedendo tolerância religiosa a todos no Império, a Igreja assumiu muito da forma de governo romana. Essa forma romana de poder deu origem à centralização da igreja na pessoa do bispo diocesano. O bispo diocesano era alguém responsável por todas as igrejas em uma determinada localidade. Nessa época, cinco bispos diocesanos se levantaram acima dos demais e foram considerados patriarcas. São eles: O bispo de Roma, o bispo de Constantinopla, o bispo de Alexandria, o bispo de Antioquia e o bispo de Jerusalém.

Nessa época, houve o início da separação do Cristianismo. Era uma época de desenvolvimento de dogmas. Então Nestório, patriarca de Constantinopla, foi considerado herege por ensinar que em Cristo havia duas pessoas e não duas naturezas. Surgiu assim a igreja nestoriana na Síria e na Pérsia.

Um segundo momento de divisão no cristianismo se dá – ainda nesse período – com o movimento monofisista. O movimento monofisista ensinava que em Jesus havia uma única natureza – a Divina – ao contrário de duas – a divina e a humana – como ensinava a fórmula de Calcedônia. O movimento monofisista (monos única physis natureza) deu origem à três igrejas: Armênia – que recusava a aceitar a fórmula calcedoniana – Jacobita (surgida na Ásia Menor, Síria, Mesopotâmia – existente até agora, mas enfraquecida) e a igreja Copta (composta por quase todos os cristãos não gregos residentes no Egito).

Essas não são as únicas cisões no cristianismo antigo. Há ainda a controvérsia donatista. Aurélio Agostinho se opôs a Donato – ambos bispos – porque um defendia que aqueles que renegavam a fé em tempos de perseguição não deviam ser restaurados à comunhão da Igreja e que os sacramentos administrados pelos traidores não era válido (Donato) e o outro defendia que a virtude do sacramento não está em quem o administra, mas no Nome do qual é administrado então mesmo os sacramentos administrados por traidores era válido (Agostinho).

Três dos cinco patriarcas caíram ante os árabes. Restando apenas dois patriarcados: Romano e Constantinopolitano. Um reconhecia a supremacia papal (Roma) e outro não (Constantinopla). O patriarcado romano cresceu vertiginosamente graças ao movimento missionário.  Então em 864 dC, houve outro cisma. Agora a igreja romana e a igreja grega se separam. Três fatores principais contribuíram para tanto:

a.     Língua – A igreja romana falava latim e a igreja oriental falava grego. Um tinha sede em Roma e outro em Constantinopla.

b.    Dois governos – O império foi divido antes em Império oriental e ocidental. Quando o Império Ocidental caiu e os governantes Orientais quiseram governar o Ocidente, o bispo romano recusou tal façanha e coroou Carlos Magno como seu Imperador – o Imperador do Sacro Império Romano Germânico.  

c.      A pretensão papal romana – A igreja ortodoxa jamais reconheceu o Papa romano. Quando em 1054, o patriarca ortodoxo condenou a igreja romana pelo uso de pão com fermento. Então os emissários romanos colocaram uma bula de excomunhão no altar da Igreja de Santa Sofia e o Patriarca Ortodoxo respondeu com uma bula de excomunhão para a Igreja Romana. Essa excomunhão mútua só foi sanada em 7 de Dezembro de 1965 pelo papa Paulo VI e pelo patriarca Atenágoras.


Por essas razões não devemos julgar que a Igreja Romano foi sempre o cristianismo todo. E mesmo dentro do cristianismo  ocidental houve cismas.

II.                O Cristianismo Ocidental ou Romano

Entre 1309-1417 houve dois movimentos que enfraqueceram muito o cristianismo ocidental. São eles: O cativeiro babilônico da Igreja e o Grande Cisma. O cativeiro babilônico foi uma mudança local de autoridade papal para a França. O Grande Cisma foi que houve três papas simultaneamente. Um Avinhão, outro em Roma e outro eleito pelo concílio de Pisa em 1409. O concílio de Constança depôs dois destes papas e elegeu Martinho V, que foi reconhecido por toda a igreja.  

Nesse momento histórico surge o anseio por Reforma na cabeça e nos membros. Uma reforma que atinja o papa e o povo. Aqui entra o conciliarismo. A tentativa de estabelecer concílios com autoridade superior ao papa. Se desse certo o movimento conciliarista seria a descentralização do poder hierárquico do papa.  Não é preciso dizer que o movimento conciliarista foi reprimido com força total pelo papado.

A esta altura, surgem personagens já conhecidos pelos cristãos protestantes. João Huss e João Wycliffe. Eles são os precursores do movimento reformista do século 16. Desidério Erasmo ou Erasmo de Rotterdam também tem papel chave nesse evento singular ocidental chamado reforma.

Anos antes da Reforma alemã, o alto preço e as colheitas escassas no sul da Alemanha fizeram com que explodisse o ódio em desesperadas rebeliões – que lembrar-nos-á a revolta dos camponeses de 1525.

Eis o recorte histórico que prepara o caminho para falarmos então da Reforma Alemã ou Luterana.

III.             A Reforma Luterana

Reforma luterana porque há vários tipos e escolas oriundas da Reforma Protestante ou Luterana. Há a Reforma Inglesa ou Anglicana. Há a Reforma Escocesa ou Presbiteriana. Há a Reforma Radical ou Anabatista ou ainda rebatizadora.

A figura central deste momento é Martinho Lutero. Nascido em 1483 e morto em 1546. Nascido e morto em Eisleben, sepultado em Wittenberg. Marido de Catarina Bora. Foi monge agostiniano. Durante certo tempo foi pastor na igreja do Castelo em Wittenberg. A principal contribuição pelo qual a igreja luterana é conhecida hoje é a doutrina da justificação apenas pela fé. Segundo Lutero este é o artigo pelo qual a igreja se mantém de pé ou cai.

A proposta por Reforma é interessantíssima. Reforma pressupõe um edifício antigo. A primeira geração de reformadores entendeu estar em ligação com a igreja antiga através dos Pais da Igreja – principalmente Agostinho. Então se quisermos realmente honrar o espírito protestante devemos, antes de tudo, estudar o cristianismo antigo. Primeiro porque nos mostrará onde os enganos adentraram. Segundo porque nos mostrará que a Reforma nos conclama a reformarmos a Igreja sempre. Afinal, a Igreja Reformada deve estar sempre sendo reformada. Pois a Reforma não foi um movimento inerrante. Há muita coisa que Lutero fez ou pregou que é digno de reprovação assim como qualquer outro reformador.

A herança da igreja antiga não é exclusividade da igreja apostólica romana. O credo apostólico não é exclusividade da liturgia romana. Os Pais da Igreja não são exclusividade da igreja romana. Eles são nossos também.  A maioria das práticas ‘estranhas’ de Lutero tem seu pano de fundo nos Pais. Por exemplo, a regeneração batismal. Lutero acreditava que o batismo regenerava a alma. A regeneração não era em virtude do próprio ato, mas em virtude exclusiva da Palavra. Se lermos Irineu, discípulo de Policarpo, ele diz: Os homens desta classe (gnósticos)  foram instigados por Satanás a negar o batismo o qual é a regeneração de Deus. Eles acreditavam, por exemplo, que o batismo é a fonte da qual fala Zacarias 13. Justino de Roma escreveu: Não há outra maneira, senão só esta: Conhecer a Cristo e ser levado a fonte da qual fala o profeta para a remissão dos pecados e desde esse momento em diante viver nossas vidas sem pecado.

Eles estavam sendo bíblicos em suas colocações. Se lermos Atos 22:16 vemos que Ananias diz a Paulo: “Levante-se, recebe o batismo e lave seus pecados invocando o nome dele”.

Em 1Pedro 3:21, o apóstolo escreve: O batismo, que corresponde a isso, agora também salva vocês, não sendo a remoção das impurezas do corpo, mas o apelo por uma boa consciência para com Deus mediante a ressurreição de Jesus Cristo.

Pedro coloca a salvação mediante a água na época de Noé (verso 20) e o batismo (v. 21) em completa analogia.

A grande proposta deste texto, portanto, é que levantemos nossos olhos além da Reforma e olhemos para a multiforme graça de Deus espalhada na Cristandade. Não só no círculo ocidental. Mas nos Pais, nos Gregos, Nos movimentos separatistas. Não estou dizendo que devemos abrir mão dos nossos pressupostos teológicos. Estou dizendo que há mais cristianismo além dos nossos arraiais. Só esse conhecimento salutar amenizaria muito a disputa entre arminianismo e calvinismo. Acabaria com as “excomunhões” de calvinistas para arminianos, de credobatistas para pedobatistas, de cessacionistas para continuístas. A proposta deste texto é lembrar que antes de reformados somos cristãos. Antes de pedobatistas somos cristãos. Antes de cessacionistas somos cristãos. Antes de históricos somos cristãos. Somos cristãos! E como Pedro diz: Se sofrer como cristão, não se envergonhe; pelo contrário, glorifique a Deus por causa disso. (1Pedro 4:16).

Será que nossos pressupostos teológicos glorificam a Deus com o nosso nome de cristãos? Será que relembrando a data das tão aclamadas 95 teses nos tornamos melhores cristãos? Que no próximo 31/10 possamos lembrar que antes de tudo, somos um corpo, partindo um pão, servindo um Senhor, tendo uma só fé, um só batismo. Somos de Cristo, somos cristãos!

Deus nos abençoe!

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