DEUS OUVE ORAÇÕES: A VIDA E A FÉ DE GEORGE MÜLLER


MÜLLER: UM LADRÃO COMUM 


George Müller nasceu na Prússia, atual Alemanha. No dia 27 de Setembro de 1805. Mais exatamente na cidade de Kroppenstaedt. Seu pai, Johann Müller, era um coletor de impostos. Na juventude, George, era um garoto travesso. Ele sequer foi ao velório da mãe, pois estava imerso na vida dissoluta com amigos. Se casou duas vezes: Mary Groves e Sussanah Sangar. Teve uma filha chamada Lydia e um filho falecido na infância chamado Elijah (Elias). Foi pastor na capela Betesda e na capela Gideão. Sua formação teológica era luterana, mas teve maior envolvimento com os batistas. Falava seis (6) idiomas. Foi o idealizador de orfanatos cristãos em Inglaterra. Foi o idealizador do Instituto de Conhecimento Bíblico Nacional e no Exterior. Contemporâneo de C. H. Spurgeon, Hudson Taylor. Era um assíduo leitor de biografias. 

Quando contava 10 anos, foi pego por seu pai furtando no seu escritório. Aos 12, fugia da escola para ir às festas noturnas tomar cerveja, jogar cartas e tocar piano em bordéis. Aos 16, alugava quartos em pensionato e saía sem pagar, furtivamente. Nesse ínterim, porém, foi pego pela polícia. Foi aprisionado na época do Natal. Ficou aprisionado 24 dias. 

Além destes problemas, George, aos 17 anos, na escola de Nordhausen, começou a ter problemas com dívidas. Como gastava rapidamente o subsídio dado pelo pai, George começou a fazer empréstimos. Ele devia o dono da taverna, o alfaiate com quem jogava cartas e vários amigos. Chegando, inclusive, a simular que tinha sido assaltado na escola para que amigos pudessem esticar-lhe o prazo das dívidas. Alguns deles até ajudaram a reunir somas para George. 

A vida dissoluta de Müller se espalhou - agora na Universidade de Halle - Todos lá ouviram falar do  estudante de teologia inteligente que podia beber dez litros de cerveja de uma única vez, contar as estórias mais escandalosas, incluindo uma sobre ser jogado na prisão, e que sempre estava pronto a apostar. 

À essa altura, com o consecutivo problema das dívidas, ele começou a penhorar seus bens: Relógios, livros, roupas. George resolveu viajar pela Suíça com alguns amigos e para isso penhorou os seus livros e fez os amigos penhorarem os deles. Ao fim da viagem, Müller era o único com dinheiro suficiente para recuperar o livros. Dinheiro, diga-se, proveniente de pequenos furtos das economias dos amigos, já que ele era o único que tomava conta da bolsa. 

COLLEGIA PIETATIS OU CONVENTÍCULOS DE FRANKFURT: A CONVERSÃO

Convidado por um amigo a ir a um estudo bíblico, George Müller foi regenerado por Deus ao ouvir a leitura de um sermão impresso. Aqui, ele tem a decisão de se tornar missionário entre os judeus. Ao notificar o pai, decide também romper com o subsídio dado por ele. E aqui também ocorre a rejeição amorosa por ter decidido se tornar missionário. 

A experiência dos estudos bíblicos deixou marcas indeléveis em Müller. 

A primeira delas foi um 'estilo simples de pregação'. Num determinado momento, ele foi convidado a pregar numa pequeníssima capela. Ele preparou um sermão incrível, decorou todas as falas. Era um Domingo, dia 27 de Agosto  de 1826. O sermão não surtira efeito. As pessoas eram pobres agricultores. Algumas disseram-no não ter entendido sequer uma palavra do que dissera. Após almoçar com o pastor da capela, Müller decidiu "pregar usando palavras e ideias simples e citaria apenas a Bíblia". Pediu ao pastor um lugar para orar e, após orar, seu sermão seria em Mateus 5:3: "Bem-aventurados os pobres de espírito". 

A segunda destas impressões foi um profundo amor à Bíblia. Depois de ter conhecido o relato dos irmãos de Plymouth e do missionário Anthony Groves, George prometera a si mesmo deixar de ler livros sobre a Bíblia e ler apenas a própria Bíblia de ponta a ponta e quando terminasse, recomeçaria tudo outra vez. Müller ensinava que a Bíblia deveria ser entendida literalmente, salvo as passagens simbólicas. Desde que se tornara cristão, ele lera integralmente a Bíblia por cerca de trezentas vezes! Um ensinamento importante que George gostava de frisar era o seguinte: 

                                      "Bem, aonde quer que vá, lembre-se disto: Se você                                                                              segurar com firmeza o ensino da Bíblia, Deus sempre lhe                                                                                dará algo para sua outra mão também segurar." 

A terceira impressão douradora que os collegia pietatis deixou em Müller era a convicção de que Deus responde orações. Há cerca de 50 mil orações respondidas registradas no diário de Müller. Separamos pelo menos 10 destas ocasiões. O próprio Müller reconhece que todo o seu trabalho nos orfanatos em Bristol, Inglaterra, era "mostrar aos cristãos que Deus é capaz de responder à oração". 

Abaixo, listamos as dez experiências de orações respondidas (seletas):

1. Dinheiro para os estudos (aulas para o Dr. Hodge).

Após deixar de receber o subsídio do pai, George se viu necessitado de dinheiro. Após sua conversão, decidiu jamais pedir dinheiro emprestado novamente. Ele estava em Cristo agora e era nova criação. Então ele fez algo que inicialmente julgava infantil demais para um homem adulto fazer. Ele resolveu orar. Dobrou os joelhos e pediu a Deus provisão para os estudos. Cerca de 1h depois disso, o reitor da Universidade - Dr. Thulock - bate à sua porta com o Dr. Hodge e mais outros três alunos para que George os ensinasse alemão. E cada um deles pagaria em separado e dobrariam a taxa normal. Essa é a primeira experiência de oração respondida que se tem registrada. 

2. Alimentação para a família: Envio do presunto e do pão.

Confesso que ao ler essa experiência, não pude deixar de notar a similaridade com os eventos na vida do profeta Elias (1Rs. 17).  George, à essa altura, já estava casado com sua primeira esposa. Era hora do jantar. Assentados à mesa, não tinham nada para comer. Como costume, George e Mary se puseram a orar. De repente, um amigo chega à porta com um presunto inteiro. George então ora em gratidão pelo presunto, e novamente, uma estranha bate à porta e diz a Mary: "Imaginei que estivessem com fome e por isso trouxe um pão recém-assado". Ela se fora antes que Mary perguntasse seu nome...

3. Orfanatos (Rua Wilson)

Ao todo, foram alugadas quatro casas na rua Wilson. Posteriormente, os órfãos de lá se mudaram para o orfanato em Ashley Down. Todavia, os orfanatos na rua Wilson - assim como os demais - foram todos respostas à oração. As mesas e as cadeiras no salão, o sofá de veludo azul, o tapete cor de rosa, as cômodas de gavetas no andar de cima, repletas de pilhas de roupas de baixo, anáguas e meias bem dobradas, os armários com fileiras de sapatos, as prateleiras com roupas de camas empilhadas até o alto com cobertores e fronhas - cada item era resposta à oração. A própria casa foi alugada com dinheiro doado em resposta à oração. George mantinha um diário de oração cuidadoso. Em um lado de cada página do diário havia gravado cada pedido de oração, e no outro lado, a data da resposta e o que aconteceu. Todos os itens da casa estava na lista. Mesmo carvão, que começara a colocar na lareira para aquecer a casa, havia sido uma resposta à oração.

4. Crianças para os orfanatos

Em um determinado dia, George se sentia extremamente frustado e desanimado dos orfanatos, pois apesar de toda a estrutura estar pronta, com voluntários e tudo mais, não havia crianças para ocupar os recintos. E isso, era absurdamente estranho já que a taxa de órfãos em Bristol era enorme. Desmotivado, George retorna para casa. Lá chegando, ao contar para Mary os acontecimentos recentes, ele disse: "Talvez tenha sido um erro". Ela lhe responde: "Como você pode dizer isso George Müller? Olhe para todas as orações que Deus nos respondeu! A casa não é resposta oração? Veja quanto dinheiro foi provido. Ele também não foi resposta às orações? E o tecido, os pratos, os móveis... Tudo naquela casa é uma resposta às orações, e nós dois sabemos disso". Ele insistia que a ausência de órfãos indicava o fracasso do empreendimento. Então sua mulher retruca: "Esse é o ponto. Nós nunca oramos pelas crianças. Você não vê? Oramos por carvão e comida, tinta e trabalhadores, mas nunca pensamos em orar pedindo crianças"! Então George começou a rir. - "Mary, você está certa. Não achei que precisávamos, pois há tantos órfãos nas ruas; tinha certeza de que teríamos solicitações de mais pessoas que poderíamos hospedar!" - ele pegou esposa pela cintura, girou-a e disse: "Vamos orar, sra Müller".

George cantarolou enquanto caminhava pela Rua Wilson. Desta vez, estava certo de que as meninas órfãs viriam. Afinal, ele pedira Deus para enviá-las. E Deus o fez! As primeiras crianças chegaram naquele dia. No final do mês, orfanato alojava 26 meninas, e mais 42 estavam na lista de espera.

5. Donativos 

Chegou um determinado momento que Müller não tinha sequer um centavo para o sustento dos órfãos. Ele disse: "Os meus olhos estão no Senhor". Então no final do dia, chegaram 5 libras, um presente de uma senhora que vendera algumas jóias para os benefícios dos órfãos. Essa quantia daria para a alimentação diurna. Já no dia 20 de Agosto de 1838, George recebeu outra doação de 5 libras. No dia 21, foram 12 libras. No dia 22, foram 3 libras. Em outra ocasião, um rico proprietário de terras enviou para o Instituto, um cheque de 220 libras. Em outra ocasião, um cheque de 500 libras para os orfanatos. Essa quantia manteria o funcionamento dos até aquele momento três orfanatos por pelo menos um ano! 

Um grupo de batistas alemães solicitaram a George que os visitasse. George não tinha dinheiro para ir. Ele orou a Deus. Após um mês de oração, em 12 de julho de 1843, um homem desconhecido deu-lhe 700 libras com quatro propósitos. Um dos quais era fortalecer a fé dos cristãos alemães.  

Quando decidiu construir em Ashley Down, George passou 35 dias orando por provisão. Na 36ª manhã, um cheque de 1000 libras - a maior quantia recebida até então - chega à porta. 

6. Doações estrangeiras

Às vezes, pessoas do outro lado do mundo que ouviram falar do orfanato ou leram o livro de George enviavam dinheiro. Um pequena garota que viva em uma fazenda na Nova Zelândia enviou um xelim que ganhou vendendo ovos de galinha. Um pastor na Austrália enviou um cheque administrativo depois de alguém lhe enviar uma cópia do livro de George. Algumas pessoas doavam itens valiosos. Era bastante comum que pacote chegasse ao orfanato repleto de anéis, colares de pérolas e broches para serem vendidos e o dinheiro revertido ao orfanato.

7. O vento muda de direção

O aquecimento dos orfanatos era feito por uma caldeira. Um dia ela quebrou. O clima frio se aproximava; era dezembro. Então George ora para que o vento se desloque para o Sul e também para qu Deus desse aos trabalhadores que consertariam a caldeira "capacidade extra para a realização do trabalho". Então, o assistente de George lhe disse: "É um milagre, Sr. Müller! O vento virou-se para o Sul e o tempo está agradável". 

8. Capacidade Extra para o Trabalho 

 Enquanto os trabalhadores consertavam a caldeira e o dia findava, os trabalhadores disseram ao mestre de obras: "Senhor, se o senhor não se importar, discutimos o assunto e decidimos ficar e trabalhar a noite toda até terminar a tarefa; É para os órfãos, um caso especial, o senhor sabe". 

9. Pães e leite para o orfanato

A vida nos orfanatos era cercada pela Providência de Deus. Uma ocasião, os órfãos estavam à mesa e não tinha nenhum alimento. George reuniu-se com as crianças e agradeceu pelo alimento. Então um barulho estrondoso vem à porta. Era o padeiro. São suas essas palavras: "Sr. Müller, não pude dormir ontem. Fiquei pensando que talvez o senhor precisasse de pães esta manhã. e que eu deveria assá-los para o senhor. Então fiz três lotes para vocês. Espero que possam aproveitá-los". George respondeu: "Deus nos abençoou por teu intermédio esta manhã". O padeiro retruca: "Há mais duas bandejas a caminho, vou buscá-las". Minutos depois, o leiteiro bate à porta. "Senhor, preciso de uma ajuda. Meu carrinho quebrou bem à sua porta e eu preciso diminuir a carga antes de poder consertá-lo. Há dez latões cheios de leite nele. O senhor poderia usá-los? Claro, sem custo algum! Apenas envie alguém para pegá-los!" George o fez, e logo eles tinham dez latões de leite armazenados na cozinha. Havia leite suficiente para cada criança beber uma caneca cheia e para que todos bebessem um pouco mais no chá durante o almoço. 

10. Nevoeiro dissipado

Com setenta (70) anos, George Müller começou algumas turnês de pregação. Ele pregou no Tabernáculo Metropolitano de Charles Haddon Spurgeon. Agora, ele estava rumo à Quebec no Canadá. No percurso, um nevoeiro denso engolfou o navio. Então Müller aborda o capitão dizendo que precisava chegar no Canadá até sábado. O capitão riu do velho e disse que era impossível dado o nevoeiro. George respondeu que em 52 anos nunca atrasara um compromisso e não começaria agora. Convidando o capitão à sua cabine, os dois se colocaram de joelhos e George orou: "Querido Deus, eu venho a ti agora para pedir-te o impossível. Sabes que preciso estar em Quebec até o sábado e que a neblina nos tem prendido. Por favor, levanta o nevoeiro para que o navio possa continuar e eu chegar na hora certa. Amém". Quando o capitão ameaçou orar com incredulidade, George o interrompeu: "Não há necessidade de o senhor orar, pois é evidente sua descrença na resposta divina à oração; eu acredito que Deus já respondeu. Vá, abra a porta, conheço meu Senhor há 52 anos, e nesse tempo não consigo me lembrar de uma única vez que ele não tenha respondido minhas orações. Posso garantir-lhe que o nevoeiro passou". O capitão respondeu: "Assim como o senhor orou, o nevoeiro desapareceu". O navio atracou em Quebec, mas não antes de o capitão ter se tornado um cristão convertido. 

George Müller de fato aprendera a lição de ser mordomo do dinheiro de Deus. Ele passou de um menino que roubava do seu pai, do jovem que usava qualquer meio que pudesse para enganar e tirar dinheiro de seus amigos, para um homem a quem Deus confiou uma fortuna, um homem que manteve tão pouco para si mesmo, que quando morreu, dispunha apenas de 160 libras em sua propriedade, e a maior parte dessa quantia consistia no valor de algumas peças de mobiliário. George viveu para fazer lembrado aos cristãos a simples e verdadeira mensagem de que "Se pedimos alguma coisa segundo sua vontade, ele nos ouve. E se sabemos que ele nos ouve em tudo quanto pedimos abemos que temos o que dele pedimos". (1João 5:14-15). 

As duas maiores lições que George Müller e seu contemporâneo Charles Haddon Spurgeon deixaram no meu ponto de vista é que Deus responde orações e que Deus cumpre sua Palavra. Sobre a Palavra, Müller disse: "A fé se apóia na Palavra Escrita de Deus"(Confira). E sobre tudo o que aconteceu em sua vida ele disse: "brota de aceitar a Palavra de Deus, acreditando no que ele diz" (Confira aqui). Charles Spurgeon disse: "Creio numa inspiração plenária e humildemente olho para o Senhor em busca de um cumprimento plenário de cada frase que Ele fez registrar" (ESWINE, 2015). 

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ESWINE, Zack. A depressão de Spurgeon: Esperança realista em meio à angústia. São José dos Campos: Fiel, 2015.

BENGE, Janet; BENGE, Geoff. George Müller: O guardião dos órfãos de Bristol. São Paulo: Shedd Publicações, 2017.

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