sexta-feira, 19 de abril de 2019

SEXTA-FEIRA SANTA: CRUCIFICADOS ÀS NOVE HORAS

Em outra postagem já abordamos algo sobre a Sexta-Feira Santa ou Sexta-Feira da Paixão (Aqui). Hoje escrevo alguma coisa sobre a realidade prática que aquela Sexta-Feira - que é relembrada todos os anos - tem em nosso dia-a-dia. 

Quando Jesus foi crucificado, todos os cristãos foram crucificados juntamente com ele. Em Gálatas Paulo deixa isso nítido. Em 2:19b, ele diz: "Estou crucificado com Cristo". Em 5:24, ele diz: "E os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne com as suas paixões e desejos". Em 6:14, ele diz: "Mas longe de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo". 

Quando Jesus percorreu a Via Sacra, todos os cristãos percorreram juntamente. O autor de Hebreus assinala (13:12-13): "Por isso, também Jesus, para santificar o povo, pelo seu próprio sangue, sofreu fora da cidade. Saiamos, pois, a ele, fora do acampamento, levando a mesma desonra que ele suportou". O próprio Jesus, nos evangelhos, assinala que percorremos juntos a Via Dolorosa. Ele disse: "Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" [Marcos 8:34].  Nas palavras de Vítor Westhelle, falecido reverendo luterano:


"Na Idade Média, os franciscanos introduziram um exercício espiritual que permaneceu muito popular até o catolicismo atual e foi adotado por alguns círculos protestantes. Ele é chamado variadamente de via crucis, via sacra, via dolorosa ou as Estações da Cruz. Tradicionalmente, há 14 estações, que começam com a condenação por Pilatos e continuam até o sepultamento de Jesus no sepulcro. Cada estação registra um dos eventos descritos nos evangelhos, desde a condenação de Jesus até a sua morte¹. 

Em uma nota de rodapé, Vítor esclarece ainda que houve adições ou subtrações da Via Crucis; por exemplo, alguns há que adicionaram uma 15ª estação: O ato em que santa Helena, mãe de Constantino, encontra a cruz. 

Quando Jesus morre, ás três horas da tarde, todos os crentes morrem com ele. Em Romanos, Paulo diz: Ou será que vocês ignoram que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte? Fomos sepultados com ele na morte pelo batismo [Romanos 6:3,4a]. Em Colossenses, Paulo mantém o mesmo raciocínio: "Tendo sido sepultados juntamente com no batismo" (2:12)  Paulo continua: "Se vocês morreram com Cristo para os rudimentos do mundo" (2:20). 

Quando Jesus foi enterrado no túmulo de José de Arimatéia, todos os crentes também o foram. Paulo diz: "Fomos sepultados com ele na morte pelo batismo" [Romanos 6:4] e "Tendo sido sepultados com ele, no batismo" [Colossenses 2:12] 


Quando Jesus ressuscita ao terceiro dia, todos os crentes ressuscitaram com ele. Uma antecipação disto foi dada na própria morte de Jesus. Mateus registra que quando o véu do santuário se rasga, os túmulos se abriram, e muitos corpos de santos já falecidos ressuscitaram. [Mateus 27:52]. Paulo explica isso em Efésios quando diz: "E juntamente com ele nos ressuscitou" (2:6). Em Colossenses, Paulo continua: "No qual vocês também foram ressuscitados por meio da fé no poder de Deus que o ressuscitou dos mortos (2:12). Paulo tanto aos Romanos quanto aos Colossenses diz que o rito do batismo aponta para a morte e ressurreição do cristão juntamente com Cristo.  Isso fica ainda mais evidente em Colossenses 3:1, onde Paulo diz: "Portanto, se vocês foram ressuscitados juntamente com Cristo , busquem as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus". 

Quando Jesus ascendeu aos céus, todos os cristãos ascendem com ele. Prosseguindo no seu argumento aos Efésios Paulo diz: "E com ele nos fez assentar nas regiões celestiais em Cristo Jesus". (Efésios 2:6b). O próprio Jesus testifica disso. Em João 14:3, falando da esperança escatológica, ele assegura todos os crentes que, naquele dia, estarão todos juntos com ele.

Todo o trajeto desde a condenação de Jesus perante o Sinédrio judaico, sua autorização romana diante de Pôncio Pilatos até à direita de Deus Pai, tem uma aplicação evangélica para os cristãos. Como os Pais da Igreja diziam: "Aquilo que ele não assumiu, ele não redimiu" (Gregório de Nanzianzo), por isso, Jesus nasceu da virgem em verdadeiro corpo e alma humanos, foi crucificado e derramou seu sangue para expiação dos pecados e ressuscitou em verdadeiro corpo ao terceiro dia e está à direita de Deus, o Pai. Como rezam as palavras do Credo, tudo isso foi "por amor de nós homens, e para nossa salvação". (Credo Niceno-Constantinopolitano). 

Nessa Sexta-Feira da Paixão, deixando de lado as controvérsias se Jesus morreu numa quinta ou sexta de fato, aproveitemos para relembrar que o Evangelho é Deus dado aos homens por Deus. Deus Filho dado à pecadores convencidos por Deus Espírito Santo com dádiva de Deus Pai. Nós percorremos a Via Sacra, nós fomos crucificados, mortos, sepultados e ressuscitados com ele. Tudo isso se torna, como Paulo demonstrou, realidade no rito batismal. Esse rito que não se prende ao ato, mas tem eficácia quando se volta para ele em fé no Deus que se deu na Palavra e não pode mentir.

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¹ WESTHELLE, Vítor O Deus escandaloso: O uso e abuso da cruz trad. de Geraldo Korndörfer, São Leopoldo, Sinodal/EST, 2008, p.167.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Série "Lei e Evangelho": Introdução


A CORRETA DISTINÇÃO ENTRE LEI E EVANGELHO (I)

O EVANGELHO NO ANTIGO TESTAMENTO

Teologicamente falando, a distinção entre Lei e Evangelho é particularidade da tradição luterana e Lutero falou muito sobre ela. Uma das coisas que ele enfatizou é que o evangelho não é coisa exclusiva do Novo Testamento. O evangelho pode e está presente em passagens do Antigo Testamento.

Algumas passagens do Antigo Testamento que são evangélicas podem ser vistas em Gênesis 3:15; Isaias 9:6; 35:5-6; 53:1-12; Salmo 16:10; etc. Além das prefigurações e tipos nos patriarcas[1], no cordeiro da páscoa de Êxodo[2], nos milagres da peregrinação no deserto (água que brota da rocha, a serpente de bronze)[3] e nos profetas[4].

O evangelista Lucas informa que João Batista pregava o Evangelho (3:18): 

E assim, com muitas outras exortações, João anunciava o evangelho ao povo (NAA)[5].

É consensual na Bíblia que João foi um profeta que pertenceu à era do Antigo Testamento; Jesus mesmo testifica disso. Ele disse (Lucas 16:16 – NAA):

A Lei e os Profetas[6] duraram até João; desde esse tempo o evangelho do Reino de Deus vem sendo anunciado, e  todos se esforçam para entrar nele.

Sendo assim inferido que a própria Bíblia que evangelho não é coisa exclusiva do Novo Testamento. Aliás, esse ensino tão comum no evangelicalismo brasileiro remonta aos ensinos do herege Marcião; que defendia a idéia de que o Deus do Antigo Testamento é mau e criador da matéria, já o Deus do Novo Testamento e Pai de Jesus é criador do espírito humano é bom. Por isso Marcião rejeitava a encarnação do Verbo Divino. Rejeitava Todo o Novo Testamento com exceção de 10 cartas de Paulo e o Evangelho de Lucas (evangelho lucano) mutilado.

O próprio Paulo demonstra em Atos 13:32 que o Evangelho fala das promessas dadas ainda no Antigo Testamento.

Sabemos que o Evangelho está no Antigo Testamento, mas, afinal, o que é Evangelho?

EVANGELHO: DEFININDO O TERMO

O termo grego é εὐαγγέλιον (euanggelion). No grego clássico, o termo vem da palavra αγγελος (anggelos) que significa “mensageiro”.  NO período helenístico podia significar ainda “aquele que anuncia oráculos”. O verbo traz o sentido de um mensageiro de alegria. O termo εὐαγγέλιον é propriamente uma mensagem de vitória. Essa mensagem geralmente era dom dos deuses para os homens; os quais, depois de receberem a mensagem, ofereciam sacrifícios aos deuses.  O termo passou a adquirir o sentido de boas notícias ainda no período helenístico.

No período que compreende o nosso Antigo Testamento, quando este foi traduzido para o grego (Septuaginta – LXX), o termo foi empregado para traduzir a palavra hebraica bissár que significa “anunciar, contar, publicar”. Esse é o verbo que se emprega em Salmo 40:9; 68:11; 96:2; Isaías 41:27; 52:7 para indicar a vitória universal e escatológica de Deus.[7] Em português, em todas estas passagens, os tradutores verteram para “boas novas”. Para a mente do Antigo Testamento, o mensageiro é aquele que com sua anunciação já inaugura o reino de vitória do Rei de Israel. É uma palavra que traz já o seu cumprimento. Aqui, os judeus gregos usaram o termo apostolos: Um mensageiro que carrega a palavra que inaugura uma nova era.

O judaísmo rabínico mantinha viva a crença de que o Rei de Israel enviaria seu apostolos. Esse enviado seria o próprio Messias. Quando chegasse, o Messias inauguraria a era da salvação.[8]
O termo ευαγγελιζονται aparece 52x no Novo Testamento. Ele significa “trazer boas noticias”, geralmente a partir do Antigo Testamento. εὐαγγέλιον ocorre 60x só nos escritos de Paulo e tem sido sugerido que Paulo foi quem estabeleceu o uso que temos do termo a partir do Novo Testamento. Em Paulo, o termo tem o sentido das boas novas nas quais  Deus agiu em favor do mundo através da encarnação, morte, ressurreição, assunção de Jesus Cristo.

Em resumo, evangelho é o anúncio de boas notícias: Deus salvou o mundo através da encarnação, morte, ressurreição e assunção de Jesus Cristo.

Só a partir do século 2 d.C, os quatro primeiros livros do Novo Testamento receberam a designação de “Evangelhos” e isso porque eles retratavam a boa notícia de que Deus esteve entre nós. Deus tabernaculou entre nós.

Sabemos que o Evangelho, isto é, a boa notícia de Deus esteve presente desde o A.T. e sabemos ainda que o termo significa “boas notícias, boas novas”, mas, afinal, onde entra essa distinção com a Lei?

SALVOS PELO QUÊ: LEI OU EVANGELHO? A PERSPECTIVA PAULINA

Paulo usa o termo Lei (grego nomos) de maneira muito peculiar.

Ele designa com isso em primeiro lugar, toda a Palavra de Deus que condena o homem:

ROMANOS 3:19-21: “Ora, sabemos que tudo o que a Lei diz é dito aos que vivem sob a Lei, para que toda boca se cale e todo mundo seja culpável diante de Deus.  Porque ninguém será justificado diante de Deus por obras da Lei, pois pela Lei, vem o pleno conhecimento do pecado.

Paulo prossegue para o segundo uso do termo Lei: Mandamentos

1Timóteo 1:8-11: Sabemos que a lei é boa, se alguém se utiliza dela de modo legítimo, tendo em vista que não se promulga lei para quem é justo, mas para os transgressores e rebeldes, para os ímpios e pecadores, para os iníquos e profanos, para os que matam o pai ou a mãe, para os homicidas, para os que praticam a imoralidade, para os que se entregam a práticas homossexuais, para os sequestradores, para os mentirosos, para os que fazem juramento falso e para tudo o que se opõe à sã doutrina, segundo o evangelho da glória do Deus bendito, do qual fui encarregado.

O terceiro uso que Paulo faz do termo nomos é a tentativa humana de se autojustificar diante de Deus e ser salvo por obras. Ele diz:

Gálatas 5:4 – Vocês que procuram justificar-se na Lei estão separados de Cristo; vocês caíram da graça de Deus.

Em todo Gálatas, Paulo combate a tendência judaizante. Essa tendência insistia em dizer que para ser salvos deveríamos guardar os preceitos cerimoniais de Moisés. Essa foi a primeira controvérsia que demandou um concílio da igreja em Jerusalém. Em Atos 15:2, os judaizantes diziam: “Se não guardarem os costumes de Moisés não poderão ser salvos”. Os apóstolos responderam à isso. Pedro, no referido concílio, disse: “Cremos que tanto eles quanto nós, somos salvos pela graça do Senhor Jesus” (At. 15:11).

Essa tentadora ação de procurar salvação na Lei é o que se chama de ‘tendência judaizante’. Foi a ela que Pedro reagiu enfatizando a graça. Ela também pode ser chamada de legalismo.

Em Gálatas, Paulo diz que para viver para Deus é preciso morrer para a Lei (2:19,21), Paulo diz que a Lei não concede o Espírito (3:2,5); Paulo diz que quem quer estar sob a influência salvadora da Lei está, na verdade, sob condenação (3:10-13); a função da Lei é ressaltar o pecado (3:19); A Lei era nosso tutor até Cristo (3:24)[9]; Paulo diz que os que são guiados pelo Espírito não estão mais debaixo da tutela da Lei (5:18) e arremata dizendo que nem mesmo aqueles que querem cumprir a lei conseguem cumprir a lei (6:13) e, assim, então caem na palavra condenatória de Deus.

OS TRÊS CONCEITOS DE LEI EM PAULO: A PALAVRA CONDENATÓRIA DE DEUS; OS MANDAMENTOS DADOS NO SINAI; E A TENTATIVA DE SER SALVO FAZENDO BOAS OBRAS.

Temos a Lei dada no Sinai e então tentamos obedecê-la para sermos salvos e fracassamos (Gl. 6:13) e por isso somos condenados (Rm. 3:19-21)

COMPREENDENDO PAULO: A PERSPECTIVA LUTERANA

Lutero e os luteranos posteriores abraçaram essa distinção paulina em sua dogmática. E como Carl E. Trueman ressalta em Entre Wittenberg e Genebra: A Teologia Luterana e Reformada em diálogo (p. 72)
A primeira coisa que precisa ficar claramente entendida é que a antítese entre lei e evangelho não consiste em que a primeira ordena e o outro promete. A lei e o evangelho oferecem promessas; a diferença é que as promessas da lei são condicionadas à obediência, enquanto o evangelho é incondicional por causa da vida e obra de Jesus Cristo.

Por essa razão, Lutero pôde falar que Deus tem duas vozes para a humanidade. A voz da Lei (Ira) e a voz da Graça (Evangelho) e este é o assunto que desdobra dessa distinção e ao qual nos desdobraremos a seguir.


[1] Gênesis 22:1-14
[2] Êxodo 12:46 ; João 19:36
[3] 1Coríntios 10:1-10 ; João 3:14-21
[4] Atos 3:22
[5] Nova Almeida Atualizada (2017)
[6] Designação típica para o Antigo Testamento nos dias de Jesus (Cf. Lucas 24:44; Mateus 5:17)
[7] Esse verso (Is. 52:7) é amplamente citado no N.T. (Rm. 10:15; Ef. 6:15)
[8] Hebreus 3:1 diz que Jesus é o apostolos de Deus.
[9] A NAA traz “Guardião”.