sábado, 2 de setembro de 2017

Aviva tua obra, Senhor

• O conceito exegético do termo 'avivar' no A.T.

Esse texto é amplo em seu significado. A vida em sua plenitude está intimamente ligada a obediência à Palavra de Deus (Dt. 8:3; 32:47). Esse viver em obediência à Palavra de Deus se dá mediante a fé (Hc. 2:4).

O termo é usado 12 vezes para indicar algo que foi reavivado no A.T. (Gn. 45:27; Jz. 15:19; 1Rs. 17:22; 2Rs 13:21; Ne. 4:2; Sl. 85:6; 138:7; Is. 57:15; Os. 6:2; 14:7;Hc.3:2). Quando o termo está indicando um reavivamento geralmente o faz indicando que Deus tira do desânimo (Gn. 45:27), da fraqueza (Jz 15:19).

 O reavivamento tem sido objeto da oração dos crentes ao longo dos anos (Sl. 80:19; 85:7; 119:25,37,40,50,88,93,107,149,154,156,159; 143:11).É algo que o próprio Deus apraz fazer (Is. 57:15; Ez. 37:5).

Quando essa palavra foi traduzida na Septuaginta os tradutores empregaram os termos Zao (ζάω), Zoon [ζωων],zoe (ζωή) e bios (βίος), termos que aparecem abundantemente no N.T. O sentido primário dessa palavra é respirar; todavia pode indicar também chamar algo morto á vida ou algo inexistente à existência

• Em quais ocasiões clamar por um avivamento?

Quando passamos por uma profunda aflição emocional – Gn. 45:27.

Jacó sofreu um terrível golpe com a mentira de seus filhos sobre a morte de José, a tal ponto que sequer queria ser consolado e esperar a morte (Gn. 37:28-36). No entanto, anos depois, ao ver que José estivera o tempo todo vivo e agora era senhor na terra do Egito, o espírito de Jacó reviveu. Aqui, o termo reviveu é o mesmo empregado por Habacuque. Davi orou assim quando esteve em forte angústia (Sl. 138:7).

Quando estamos esgotados fisicamente – Jz. 15:19

Sansão foi um dos libertadores de Israel antes da monarquia, fez grandes feitos no poder do Espírito Santo, no capítulo em questão, ele matou mil homens apenas com a mandíbula de um jumento (v.16). Agora, esse homem de Deus estava esgotado fisicamente; tão esgotado estava que beirava à morte (v.19), então clamou ao Senhor e, após Deus ter feito um milagre, Sansão recobrou as forças (lit. Suas forças foram renovadas). Aqui, mais uma vez, usa-se a mesma terminologia que o profeta Habacuque. Nos salmos de lamento, há muitas ocasiões nas quais os homens de Deus oram para que Deus lhes dê recuperação das doenças, e esse termo também é usado nesse sentido no A.T.

 Quando estivermos enfrentando forte oposição – Ne. 4:2

A situação para os repatriados era vexatória; diz o texto de Neemias que Sambalate os ridicularizava (v. 1). Sambalate insinuava a falta de recursos para a reconstrução do muro (v.2). Sambalate não era um mero coadjuvante nesse período era o governador de Samaria, pois o texto hebraico ao mencionar que ele estava na presença dos poderosos significa que ele era contado entre eles. Quando Sambalate diz: “Será que vão conseguir ressuscitar pedras de construção daquele monte de entulho”, aqui, o escritor está usando o mesmo termo que Habacuque. O salmista orou quando passou por situações assim (Sl. 119:107).

 Quando estivermos oprimidos e humilhados – Is. 57:15

Aqui aparecem dois termos distintos דַּכָּא (dakka') e שָׁפָל (shaphal). A primeira destas é traduzida em nossa língua tanto por ‘contrito, oprimido’ como também para ‘pó’. Ele indica o estado daquele que sente esmagado (Sl. 34:18). A segunda destas indica alguém que está deprimido, indica alguém que sente inferior; alguém que está se sentido rebaixado (2Sm. 6:23). A estes, Deus tem seu olhar fixo e, promete restaurá-los, renová-los e reaviva-los, pois aqui, o profeta Isaías usa o mesmo termo que o profeta Habacuque. Foi assim que o salmista orou (Sl. 119:25).

 Ao enfrentarmos a disciplina de Deus – Os. 6:2; Hc. 3:2

O profeta Oséias declara abertamente que a ferida de Israel vinha de Deus (v.1), isto é, Deus estava disciplinando seu povo. O profeta Habacuque também ouviu da parte de Deus várias sentenças de disciplina sobre Judá (Hc 1:5). Vários especialistas em hebraico dizem que quando Habacuque, no capítulo 3, diz: “Ouvi falar da tua fama”, o significado mais exato no original é: “Ouvi o teu relatório acerca do que vem pela frente”; o que estava diante de Judá nesse tempo era o Império Babilônio. Razão pela qual o profeta ora: “Nesse período tão difícil pro teu povo, lembra da misericórdia”. Que Israel estava enfrentando um período de disciplina de Deus fica claro pelo uso que o profeta Habacuque faz “na ira, lembra-te da misericórdia”. Ele concebia que a nação enfrentaria uma calamidade, mas em meio a essa calamidade ele orava por reavivamento.

• Como a Bíblia ensina orar por reavivamento?

Em primeiro lugar, confiando na palavra de restauração;

O salmista diz que o reavivamento para sua vida vem por causa da Palavra de Deus (Sl. 119:25, 50). O salmista ora confiante no veredito favorável de Deus para com ele em reaviva-lo (Sl. 119:149). No v. 149, é usado o termo מִשׁפָּט (mishpat) como causativo do reavivamento que o salmista experimentou. מִשׁפָּט significa ‘veredito, pronunciamento judicial, sentença, decreto, justiça’. Ele ora, confiante que no tribunal de Deus, por causa do sangue prospectivo de Jesus (Hb. 9:15) ele foi justificado, o veredito para ele, portanto, é experimentar reavivamento.

Em segundo lugar, confiando na bondade e misericórdia de Deus;

O salmista diz que o reavivamento lhe vem por causa da misericórdia, da bondade, da fidelidade, do amor leal, piedade e favor de Deus para com ele (Sl. 119:88). Todos esses significados estão presentes no termo חֵסֵד (checed) usado aqui. Ele claramente pede para que Deus o reavive como obra de sua misericórdia (Sl. 119:159).

Em terceiro lugar, lembrando-se dos mandamentos de Deus;

Diz o Salmista que o reavivamento veio quando ele se lembrou dos mandamentos de Deus (Sl. 119:93). Jesus Cristo disse que aquele que o ama guarda os seus mandamentos (Jo. 14:21), o apóstolo João esclarece que os mandamentos de Deus não são pesados, isto é, opressivos, antes nossa obediência à eles são uma resposta amorosa ao que Deus em Cristo já fez por nós (1Jo. 5:3).

Em quarto lugar, entendendo que avivamento é obra de Deus e não nossa. À maneira de Deus e não nossa (Sl. 143:11);

Davi diz “vivifica-me Senhor, por causa do teu nome”. Para a mente dos personagens do A.T. o nome significa a pessoa. Assim sendo é como se Davi orasse: “Senhor, vivifica-me por tua causa”. Obviamente, a palavra aqui empregada para nome (שֵׁם – shem) significa também “fama, honra”, logo, Davi também orou: “Senhor, não deixe que a tua fama caia em desonra por minha causa, renova-me, reaviva-me. Faz a tua obra em mim! Isso fica ainda mais evidente ao lermos Ez. 37:5, alguns sugerem que o espírito aqui mencionado seja o Espírito Santo. Se assim for, o reavivamento, como toda boa dádiva é obra de Deus (Tg. 1:17).

• Os resultados de um avivamento segundo a Bíblia

Salvação dos pecadores – Sl. 85:7
Bençãos terrenas – Os 14:7
Demonstração da graça de Deus – Hc. 3:2 “na ira lembra da misericórdia”.
Apreço pela Palavra – Instrumento de todo avivamento conforme visto

Que Deus nos ajude, e que por sua Palavra nos capacite a orar e a experimentar um poderoso avivamento em nossas vidas.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O que é ser um cristão?

William Lane Craig diz em seu livro "Apologética para questões difíceis da vida" que todo ser-humano tem que ocasionalmente abrir sua sacola de dúvidas não resolvidas e lidar com elas. Uma dúvida muito recorrente entre as pessoas religiosas é se elas são, de fato, cristãs. O que realmente define um cristão? Como reconhecer um cristão dentre as pessoas? Lutero disse em seu Catecismo Maior: "Você não precisa chegar e dizer como você é devoto ou como você é ruim. Se você for cristão, já o sei; se não for, isso saberei melhor ainda”  .  Parece que Martinho Lutero diz aqui que a identificação do cristão é ex opere operato, ou seja, algo que prontamente reconhecemos. Mas o fato é que dada a pluralidade de ‘cristianismos’ fica difícil para nós nos reconhecermos como cristãos e reconhecermos outros como cristãos.

O termo cristão aparece apenas três vezes na Bíblia (Atos 11:26; 26:28; 1Pedro 4:16). Sua origem, segundo alguns, vem do campo militar e significa “soldados de Cristo”, “casa de Cristo”, “partidários de Cristo”. O título em si já estava em pleno uso no ano 60 d.C. Tanto o historiador Tácito, quanto o governador Plínio, o Moço, usavam o termo em suas respectivas épocas.

Os dicionários teológicos definem o cristão como aquele que crê em Cristo e procura viver de acordo com seus ensinamentos. “Aquele que diz estar nele, esse deve andar como ele andou” (1João 2:6). Jesus andou por toda a parte fazendo o bem e curando os oprimidos pelo diabo (Atos 10:38). O cristão, segundo essa definição, deve então fazer o bem a todos, especialmente aos da família da fé (Gálatas 6:10). No entanto, o cristão faz o bem a todos não para tornar-se cristão, mas por já sê-lo.

A questão que surge diante de nós agora é: “Ensinamentos de Cristo”. Onde se encontram? Qual a sua autenticidade? Há tantos supostos ditos de Jesus não registrados nos evangelhos canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João)   e eles devem ser aceitos como legítimos? A resposta é não e para não delongarmos inutilmente aqui acerca dessa questão recomendamos que se leia isto e isto.

Até agora, temos estabelecidos duas teses: A primeira delas é que um cristão é alguém que crê em Cristo Jesus, apega-se firmemente a ele. Martinho Lutero tem muitas frases esclarecedoras a esse respeito, uma delas que é pertinente aqui é: “Por isso alguém não é chamado de cristão por fazer muito; mas por tomar, buscar, deixar-se presentear por Cristo. Quando alguém não toma mais de Cristo não é cristão. O nome cristão fica no tomar e receber, não no fazer, porque não recebe nada de ninguém, exceto de Cristo. Se ele olha para o que faz já perdeu o nome de cristão. É verdade que devemos fazer boas obras, ajudar o próximo, aconselhar e dar; mas por isso ninguém se torna um cristão. Assim, se quisermos reconhecer se alguém é cristão conforme a palavra de Deus, temos de perguntar como ele está em relação a Cristo, se ele se apega somente à graça de Cristo. Por minhas obras, o jejuar, posso ser chamado de jejuador; por minhas peregrinações, um peregrino, mas não de cristão”.

Lutero prossegue seu pensamento e diz que na verdade, ser cristão consiste em reconhecer que somos pecadores e pedir misericórdia . Lutero ainda diz: “Ser cristão é possuir o evangelho e crer nele. Essa fé traz perdão dos pecados e graça de Deus”  .

Portanto, ser cristão é, antes de tudo, como pecadores que somos, nos apegarmos fielmente a Cristo Jesus conforme anunciado no evangelho e pedir sua misericórdia para recebermos perdão dos pecados.

A segunda tese que estabelecemos é que um cristão procura viver de acordo com os ensinamentos ‘autorizados’ de Cristo Jesus; Isto é, faz boas-obras. O apóstolo Tiago, irmão do Senhor, diz em sua epístola (2:14-26) que fé sem obras é uma fé morta, assim como o corpo sem espírito é morto. Lutero diz “onde não se seguem boas-obras aí a fé é falsa e não verdadeira ”. E: “Perante Deus é a fé que santifica servindo apenas a ele, ao passo que obras servem às pessoas ”.

Segundo o reformador, as obras se não forem úteis ao próximo sequer deveriam ser feitas . As nossas boas obras, segundo Lutero, só são boas por causa da fé; é a fé que torna boas as nossas obras. O ser humano se torna justo sem as obras, ainda que não fique sem obras depois de ter se tornado justo.

É evidente que a Bíblia tem muitos ensinamentos para os cristãos, tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento. Pessoalmente, seguindo Jesus, Paulo, João e Lutero, acredito que o que melhor sintetiza o cumprimento dos mandamentos é o amor (Romanos 13:8-10; Marcos 12:30,31) até mesmo porque a fé atua pelo amor (Gálatas 5:6). O amor é o caminho sobremodo excelente (1Coríntios 12:31 – 13:1). Daí que Jesus nos deu um novo mandamento: Amar uns aos outros (João 13:34). É-nos impossível cumprir esse mandamento como é impossível cumprir qualquer outro mandamento divino (Tiago 2:10), no entanto, o Espírito Santo vem e nos capacita mediante a fé, a graça e o amor a cumpri-lo (Romanos 5:5). Daí voltamos para a seguinte conclusão:

 Até para praticarmos boas obras como cristãos precisamos nos apegar a Cristo Jesus conforme revelado no evangelho, pedindo misericórdia para recebermos perdão de pecados.

Logo, um cristão é alguém que é pecador e por ser pecador se apega fielmente a Cristo Jesus conforme ele é revelado no Evangelho sedento da misericórdia de Deus para receber o perdão de seus pecados.


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                                                 BIBLIOGRAFIA

  LUTERO Martinho, Catecismo Maior do Dr. Martinho Lutero trad. Walter O. Schlupp, São Leopoldo, Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2012, p. 132.

  O termo acadêmico para designar esse conjunto de ditos de Jesus é Ágrafa.

  APUD FERREIRA Franklin, Pilares da Fé: Atualidade da mensagem da Reforma , São Paulo, Vida Nova, 2017, p. 40.

 LUTERO Martinho, Catecismo Maior do Dr. Martinho Lutero trad. Walter O. Schlupp, São Leopoldo, Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2012, p 131.

  WOLF Manfred Mais uma pergunta Dr. Lutero...: Entrevista com o Reformador, trad. Hugo Solano Westphal, São Leopoldo, Sinodal, 2011, p. 35.

  FERREIRA Franklin, Pilares da Fé: Atualidade da mensagem da Reforma, São Paulo. Vida Nova, 2017, p 158.

  LUTERO Martinho, Catecismo Maior do Dr. Martinho Lutero trad. Walter O. Schlupp, São Leopoldo, Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2012, p 49.

  HELMER Christine Lutero: Um teólogo para tempos modernos; trad. Geraldo Korndörfer, São Leopoldo, Sinodal, 2013, p. 247.