sábado, 21 de abril de 2018

A supremacia de Cristo: Bíblica, Teológica e exegeticamente [Cl. 1:15-20]


“Nada decidi saber entre vocês senão Jesus Cristo e este crucificado” -  1Co. 2:2

Jesus Cristo é o personagem principal de toda a história humana e também o personagem principal de toda a Escritura. É costumeiro dividir a Escritura como preparação, chegada e explanação de Cristo. Preparação fala-nos do Antigo Testamento onde ele é o Messias esperado. Anúncio ou chegada fala-nos dos evangelhos onde temos as obras de Jesus pelos homens. Explanação fala-nos das epístolas e Apocalipse onde nos é explicado a Pessoa e a Obra de Jesus pelos homens e sua vitória final sobre o mal de forma definitiva.  

I.                    A supremacia de Jesus na Escritura

O apóstolo João informa que Jesus é o Deus preexistente [Jo. 1:1]. O apóstolo Paulo o chama Senhor [1Co. 8:6] e Deus bendito [Rm. 9:5]. Pedro o chama de Salvador [At. 5:31]. Teólogos entendem que a teofania do Anjo do Senhor no Antigo Testamento fala de Cristo, pois ninguém nunca viu Deus, o Pai [Jo. 1:18]. Além do mais, Ele tem o nome do Senhor e é distinto dele [Ex. 23:21] e é dito que ele é Deus [Jz. 13:22]. Daí se segue que Jesus não é somente anunciado no Antigo Testamento, mas estava também atuando ativamente nele.

No Novo Testamento, Jesus aparece como figura principal em todas as páginas. João Batista disse que Jesus tinha a primazia [Jo. 1:15,30]. Fato ao qual Paulo anui [Cl 1:18], bem assim João [Ap. 1:5-6]. Jesus reconhece que a Escritura testifica dele mesmo [Jo. 5:39] e ensinou seus discípulos tudo que constava a seu respeito nela [Lc. 24:44].

Cristo é a manifestação da boa vontade de Deus para o homem [At. 10:38]. É a perfeita vontade de Deus para o homem [2Co. 4:4; Cl. 1:15]. Cristo é o concessor dos dons de Deus para a Igreja [Ef. 4:7-11]. Cristo é o concessor do Espírito Santo e do arrependimento [At. 2:33; 5:31]. Cristo é o centro da pregação cristã [1Co. 2:2]. Cristo é o único mediador entre a Divindade e a humanidade [1Tm. 2:5]. O único caminho para o Pai [Jo. 14:6].

Para os amanuenses bíblicos, Cristo tem a primazia [Jo. 1:15,30; Cl. 1:18]. Esse termo ‘primazia’ [gr. Πρωτος] significa “primeiro em tempo e lugar; primeiro em posição, honra; principal”. O próprio Jesus reconhece como sua a primazia [Ap. 1:17; 2:8; 22:13]. A honra de Jesus foi-lhe conferida por Deus o Pai para que todo joelho se dobre e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor para a glória de Deus Pai [Fp. 2:11]. Já que o nome de Jesus é o nome que está sobre todo o nome [Fp. 2:9].

Cristo Jesus é a revelação plena de Deus Pai para a humanidade [Jo. 1:18]. Ele é o eikon de Deus. A palavra eikon [imagem] não significa uma simples cópia, mas a revelação e iluminação da essência de algo ou alguém. Cristo revela a essência e natureza de Deus.

II.                  A supremacia de Jesus na Igreja ao longo da história

Na Igreja Antiga, “todos os pensamentos sobre a vida religiosa tinham como centro a pessoa de Cristo[1]. Cristo era o supremo objeto do pensamento cristão, pois era o fundamento e a força do cristianismo[2]”.  Segundo Karl Barth “A fé cristã se sustenta ou cai de uma vez por todas com o fato de que Deus e somente Deus é o seu objeto. Ela cai se alguém rejeita a doutrina bíblica de que Jesus Cristo é o Filho de Deus, e de fato o Filho unigênito de Deus e, portanto, a completa revelação de Deus e que toda a reconciliação entre Deus e o homem está nele”[3].

De acordo com Justo Gonzalez, “no início do século II o governador Plínio escreveu uma carta afirmando que os cristãos reuniam-se todo domingo para cantar hinos a Cristo como Deus”[4].
Roger Olson nos informa que “o fato de que os cristãos antigos adoravam Jesus Cristo como Deus é bem documentado por autores não-cristãos do século II. Celso (filósofo romano anticristão de meados do século II ridicularizou os cristãos  por cultuar um ser-humano como Deus:

Ora se os cristãos adorassem apenas um Deus, eles poderiam ter a razão a seu lado. Mas de fato adoram um homem que só apareceu recentemente. [...] E a adoração desse Jesus é a mais ultrajante porque se recusam a prestar atenção a qualquer conversa sobre Deus, o pai de tudo, a menos que inclua uma referência a Jesus. [...]  E quando eles o chama filho de Deus [...] estão tentando elevar Jesus às alturas[5].”

Agostinho, o grande bispo norte-africano escreveu no seu Enchindion: Fé, esperança e amor o seguinte: “motivo pelo qual Cristo Jesus, o Filho de Deus  é Deus e homem. É Deus antes de todas as eras; homem em nosso tempo. Ele é Deus porque é a Palavra de Deus, porque o Verbo era Deus. Porém ele é homem pois em sua pessoa foram unidas à Palavra uma alma racional e um corpo. Portanto, na medida em que ele é Deus, ele e o Pai são um; mas na medida que é homem, o Pai é maior que ele. Uma vez que ele foi o único Filho de Deus, não por graça, mas por natureza, para que ele também ficasse cheio de graça, ele se tornou igualmente Filho do Homem; e o mesmo único Cristo é resultado da união de ambos [...] Ser Deus e homem não fez dele dois filhos de Deus, mas um único Filho de Deus: Deus sem começo, homem com começo definido – Nosso Senhor Jesus Cristo.[6]

Lutero, reformador da Igreja, no século XVI disse o seguinte de Cristo Jesus:

“Somente Jesus Cristo é o princípio e o fim de todas as minhas cogitações teológicas dia e noite [...] É suficiente para nós aprender e conhecer Cristo em sua humanidade, na qual o Pai revelou a Si mesmo".[7]

Aqui, percebe-se claramente que Lutero seguia Irineu de Lião que assumia toda a discussão cristológica a partir da encarnação. Irineu dava grande significado à união de Deus com a humanidade[8].

A Igreja faz bem em reter o que Vicente de Lérins, Pai da Igreja, ensinou no que ficou conhecido como “canon vicentino”: Nós devemos manter o que foi crido por toda a parte, sempre e por todos. 

A igreja cristã sempre confessou um só Cristo verdadeiro Deus, consubstancial com o Pai desde toda a eternidade e verdadeiro homem, consubstancial a nós homens desde que nasceu da Virgem Maria. Uma única pessoa com duas naturezas. Confessando a natureza teantrópica de Cristo, sua supremacia, estamos conectados com as raízes de nossa fé. Àquela Igreja Antiga fundada sobre os apóstolos e profetas [Ef. 2:20].

III.                Análise de um trecho bíblico relevante: Colossenses 1:15-20

Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste. Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia, porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.

Em primeiro lugar, Jesus Cristo é a exegese de Deus, a expressão visível do Deus invisível [1:15a]. O apóstolo Paulo afirma: “Ele é a imagem do Deus invisível” [1:15ª]. Deus como Espírito é invisível e sempre será (1Tm. 6:16). Mas Jesus é a Sua visível expressão. Ele não apenas reflete Deus, porém como Deus Ele revela Deus para nós [Jo 1:18; 14:9]. Jesus é a imagem, não a imitação, de Deus. A palavra “imagem” significa uma representação e uma revelação exata. Quem vê o Filho, vê igualmente o Pai [Jo. 14:9]. O Filho é a imagem exata do Ser do Pai [Hb. 1:3]. Quem quer saber como é Deus, considere atentamente a pessoa de Jesus Cristo: Seu amor e Sua indignação; Sua misericórdia e Sua denúncia dos hipócritas; Sua humildade e Sua majestade; Sua atitude de servo e Seu senhorio.

Em segundo lugar, Jesus Cristo tem a mais alta honra na criação (1:15b). A expressão “primogênito da criação”, (gr, prototokos) não se refere à natureza temporal, ao tempo de nascimento; antes, é um título de honra. Significa que Jesus é o primeiro em importância. Carrega a idéia de prioridade, superioridade, preeminência e supremacia. A palavra enfatiza a preexistência e singularidade de Cristo, bem como a Sua superioridade sobre a criação. Cristo foi antes de "toda a criação" no tempo, e Ele está sobre "toda a criação" em autoridade. Tendo em vista o contexto (vs. 16-20), a ênfase principal parece estar em sua soberania.

Em terceiro lugar, Jesus Cristo é o autor da criação (1:16). Jesus Cristo é a fonte da criação. A expressão “nele”, (gr. en autou)  denota Cristo como a esfera dentro da qual a obra da criação ocorreu. Todas as leis e propósitos que guiam a criação, bem como o governo do universo, residem Nele.

Jesus Cristo é o agente da criação (1:16b). A expressão “por meio dele”, (gr. di autou)  descreve Cristo como o instrumento imediato da criação. Jesus Cristo é o alvo da criação. Paulo conclui: “... tudo foi criado [...] para ele” (1:16c). A expressão “para ele”, (gr. eis auton) indica que Cristo é o alvo da criação. O mundo foi criado para o Messias. A história está se movendo em direção a um objetivo, quando todo o universo criado irá glorificar a Cristo (cf. 1Co. 15:25; Fp 2: 10-11; Ap 19:16).

Jesus Cristo é o sustentador da criação (1.17b). Paulo conclui: “Nele, tudo subsiste”. A palavra grega sunesteken, “sustentar, manter”, revela o princípio de coesão do universo; Jesus é o centro de coerência e coesão do universo.

Cristo enquanto Imagem (gr. Eikon) denota três coisas: Semelhança, representação e manifestação. Cristo representa exatamente quem Deus é para nós. Cristo manifesta Deus em sua plenitude para nós; todo seu amor, bondade, justiça, santidade, ira, misericórdia e todos os demais atributos comunicáveis e incomunicáveis devem ser vistas à luz da ação de Cristo.

Cristo é o primogênito de toda a criação. Embora seja gramaticalmente possível traduzir isso como 'Primogênito na Criação', o contexto torna isso impossível por cinco razões:  (1) O ponto inteiro da passagem (e o livro) é mostrar a superioridade de Cristo sobre todas as coisas. (2) Outras declarações sobre Cristo nesta passagem (como Criador de todos [1:16], defensor da Criação [v. 17], etc.)  claramente indicar Sua prioridade e superioridade sobre a Criação.  (3) O 'Primogênito' não pode ser parte da Criação se Ele criou 'todas as coisas.' Não se pode criar a si mesmo. (As testemunhas de Jeová acrescentam erroneamente a palavra "outro" seis vezes nesta passagem em sua Tradução do Novo Mundo. Assim eles sugerem que Cristo criou todas as outras coisas depois que Ele foi criado! Mas a palavra 'outro' não está no Gr.) (4) O 'Primogênito' recebeu adoração de todos os anjos (Hb 1:6), mas criaturas não deve ser adorado (Ex. 20:4-5). (5) A palavra grega para Primogênito é prototokos. Se Cristo fosse o 'primeiro criado' a palavra grega teria sido protoktisis.

Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia, porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude [gr. Pleroma] e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.

A proeminência do Filho é vista com maior clareza na obra da redenção (v. 20). Na literatura gnóstica o termo pleroma [plenitude] indica uma série de emanações angélicas que supostamente mediavam entre Deus e humanidade. Paulo diz que o pleroma  não estava nos anjos, mas sim no Filho. Ele é o caminho para o Pai [Jo. 14:6] e o mediador entre Deus e a humanidade [1Tm. 2:5].

A importância da linguagem usada pelo apóstolo é indicar que o completude da auto revelação de Deus estava focada em Cristo e que a obra da reconciliação completa entre humanidade e Divindade é mediada por Cristo Jesus. Ele é o mediador da criação e da redenção e autor de ambas as coisas.

A palavra grega traduzida "habitar" (katoikesai) significa habitar permanentemente. Isso contradiz a ideia de que Cristo possuía poder divino apenas temporariamente. Cristo é pleno Deus e pleno homem. Orígenes até cunhou a expressão Deus-homem.  Por causa do pleroma de Cristo temos nossa plerose. Por causa da suficiência de Cristo, tornamo-nos satisfeitos n’Ele.

A supremacia de Cristo é realçada também no alcance de sua obra (v. 20).  Cristo reconciliou consigo o mundo todo, isso certamente inclui o mundo angélico, mas não o Diabo e suas hostes. O que a obra da reconciliação fez foi trazer o Diabo e suas hostes à autoridade de Cristo à vista dos homens. Cristo já os dominava como seu Criador, agora, pela obra da reconciliação, demonstra seu senhorio subjugando-os na vitória da cruz (Cl. 2:14-15).

Aqui nesses versos (vs 15-20) temos treze declarações poderosas a respeito de Cristo:



1. Ele é a imagem do Deus invisível (v. 15).
2. Ele é o primogênito da criação (v. 15)
3. Ele é o originador da criação (v. 16).
4. Ele é o agente da criação (v. 16).
5. Ele é o objetivo da criação (v. 16).
6. Ele é o antecedente da criação (v. 17).
7. Ele é o sustentador da criação (v. 17).
8. Ele é o chefe da igreja (v. 18).
9. Ele é o primogênito dos mortos (v. 18).
10. Ele é o proeminente (v. 18).
11. Ele é a plenitude de Deus (v. 19).
12. Ele é o reconciliador de todas as coisas consigo mesmo (v. 20).
13. Ele é o criador da paz (v. 20).




Os versos 15-18 é chamado de “A grande Cristologia da Bíblia”. Já os versos 15-20 são chamados de “hino em homenagem à Cristo”. A poesia desse texto parece seguir a rítmica hebraica e não a rítmica grega. A supremacia de Cristo é vista a todo momento. A primeira parte se concentra em seu papel proeminente na criação, enquanto a segunda enfatiza sua obra como Redentor. Sua supremacia não deve ser dividida com ninguém: Seja com homens, anjos ou demônios; Cristo permanece soberano para sempre!








[1] NICHOLS, Roberts Hastings, História da Igreja Cristã , 14ª Edição, São Paulo, Cultura Cristã, 2013, p. 34.
[2] Ibidem, p. 46
[3] FERREIRA, Franklin, O credo dos apóstolos: as doutrinas centrais da fé cristã, São José dos Campos, SP, Fiel, 2015, p. 203.
[4] GONZALEZ, Justo L.  Uma breve história das doutrinas cristãs, São Paulo,  Hagnos, 2015, p. 131
[5] OLSON, Roger E. Histórias das controvérsias cristãs: 2000 anos de  unidade e diversidade São Paulo, Editora Vida, 2004, p. 322.
[6] Ibidem, p. 325.
[7] LUTERO, Martinho Conversas à mesa, Brasília, DF, Ed. Monergismo, 2017, p. 116.
[8] BERKHOF, Louis A história das doutrinas cristãs, São Paulo, PES, 1992, p. 60.

quinta-feira, 29 de março de 2018

QUANDO NOSSA VIDA PERDE O SENTIDO: REFLEXÕES PARA UMA SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO

QUANDO NOSSA VIDA PERDE O SENTIDO: REFLEXÕES PARA UMA SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO
“O Filho do Homem será entregue nas mãos dos homens, e o matarão; mas, três dias depois da sua morte, ressuscitará.” (Mc. 9:31)
Durante três anos e meio, a vida de doze homens e suas famílias gravitava em torno de uma figura enigmática: Jesus de Nazaré. Tudo o que faziam, diziam, eram e sentiam girava em torno de Jesus, o nazareno. Quando precisavam de saúde, ele os curava; quando precisavam de provisão, ele a enviava; quando precisavam de conselhos, ele os dava. Ele era a resposta de Deus às necessidades e ansiedades daqueles doze e suas famílias. Eles testemunharam que ele era o Salvador do mundo.
Numa noite fatídica, no entanto, à mesa Jesus notifica aqueles doze que seria sua última refeição com eles. Estabelecia aí a Ceia do Senhor ou a Eucaristia. Eles foram todos tomados de pavor, segundo o relato do Evangelista João. Aquele que era vida dos homens estava anunciando que regressaria para o Pai. Quão conturbado aquilo deveria ter soado!
“Dedicamos nossa vida seguindo o Senhor, agora ele regressará ao Pai. O que será de nós e nossas famílias?” “O que faremos agora?” “Quem nos sustentará? Quem nos ensinará o caminho da vida eterna?” “Vamos morrer contigo!”. Sem dúvida, a vida daqueles doze apóstolos perdeu o sentido com a notícia da partida de Jesus. Aquela sexta-feira foi sem dúvida a mais triste e conturbada de todos os tempos para aqueles seguidores.
Eles ficaram aterrorizados com aquilo. Judas foi enforcar-se. Pedro foi pescar e os demais apóstolos ficaram trancafiados numa casa em Jerusalém. A desconfiança tomava conta do coração de cada um; perdeu-se toda a esperança. O sentido da vida foi morto na cruz. Uma forma de execução corriqueira para aqueles dias.
Na maioria das vezes nós seguidores de Jesus nos sentimos assim hoje. Sabemos que ele está no céu, à destra de Deus Pai, mas isso é aterrorizantemente longe de nós. Como se o nosso Jesus não se importasse com as minúcias de nossa vida. Sentimos que dedicamos nossa vida a uma causa perdida. Uma causa esmagada pelo corriqueiro.
Trancafiados dentro de nós mesmos; dentro de nossos medos; dentro de nossas inseguranças; dentro das nossas limitações de criaturas pecadoras. Sentindo-se sem raízes em todo e qualquer lugar como aqueles seguidores que eram conhecidos de todos, mas ninguém queria tornar-se associado deles até aquele momento. Saudosos das antigas manifestações de Jesus; assim nós, na maioria das vezes, somos saudosos dos maravilhosos feitos de Deus em nós e por nós.
Essa experiência não é estranha a nenhum cristão. Recebeu o nome de “noite escura da alma” ao longo da história. Israel experimentou isso como nação na época do profeta Isaías. Está escrito: “Sião diz: O SENHOR me desamparou, o Senhor se esqueceu de mim”. (Is. 49:14) E Davi escreveu: “Até quando, SENHOR? Esquecer-te-ás de mim para sempre? Até quando ocultarás de mim o rosto?” (Sl. 13:1) Assim também aqueles galileus e nós.
Quando achamos que Deus não se importa mais ou não mais agirá, retomamos nossos afazeres ordinários. Assim aquelas mulheres que foram ao túmulo embalsamar o morto, representam-nos na ordinariedade da vida quando nos acostumados com a catástrofe, com o pessimismo. “Já que não tem mais jeito, adaptemo-nos”. “Vamos embalsar o corpo do Senhor”.
Mas o versículo de São Marcos nos mostra que “O Filho do Homem ressuscitará ao terceiro dia”. Quando chegaram ao túmulo, encontraram anjos, viram a pedra removida e aquele que foi crucificado vivia. Quando parece que tudo vai água abaixo, Deus ainda rege tudo do seu sublime trono. Ele devolveu sentido aqueles seus seguidores. O anjo disse: “Vão, digam aos seguidores dele e a Pedro que ele os encontrará na Galiléia”. O mesmo Jesus que padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, agora vai atrás do saudosista Pedro, do incrédulo Tomé, do medroso João. Ele janta com eles. Ele promete revestimento de poder. Ele promete presença constante de Deus com eles, o Espírito Santo, Deus adorado juntamente com o Pai e o Filho, Senhor, vivificador, que falou pelos profetas. Ele se promete a cada um dizendo: “Eu estarei com vocês até a consumação dos séculos”. Ele se promete dizendo: “Mesmo na sua velhice, quando tiverem cabelos brancos, sou eu aquele, aquele que os susterá. Eu os fiz e eu os levarei; eu os susterei e eu os salvarei.” (Is 46:4)
A sexta-feira da Paixão é um lembrete de que quando tudo indica que vai água abaixo, Deus ainda governa, Deus ainda é soberano; A cruz e o túmulo estão vazios, mas o Trono não. É um lembrete da presença de Jesus entre nós nos piores momentos. Quando parece que ele não trabalha é quando ele mais trabalha. Quando parece que ele nos esqueceu, é quando ele está efetuando a melhor e maior vitória. Foi naquela cruz, naquele fatídico dia que ele, na sua cruz, cancelou o escrito de dívida que constava contra nós; que, ao derramar seu sangue, efetuou reconciliação entre Deus e o seu povo, de toda tribo, língua e nação.
O mesmo João que se amedrontou naquele fatídico dia, testemunha no livro de Apocalipse que o Cordeiro está no meio do trono (Ap. 5:6), regendo todas as coisas para a expansão do seu Reino, para o bem da Sua igreja e para que todas as coisas trabalhem juntas para o bem daqueles que o amam e foram por ele chamados (Rm. 8:28).
Sexta-Feira da Paixão: Um lembrete de que: “Deus mesmo disse: "Nunca o deixarei, nunca o abandonarei”. (Hebreus 13:5).